A importância de definir objetivos para sua empresa

“Determine objetivos com clareza, desmembre tais objetivos em dimensões além do financeiro, acompanhe de maneira próxima e diária”, orienta o docente de Estratégia e Empreendedorismo, Edson Barbero | Foto: Freepik

*Por Edson Barbero

Determinar objetivos está entre as atividades mais cruciais para o desenvolvimento de uma empresa e para o trabalho de um gestor, seja ele em nível estratégico, tático ou operacional.

Tomemos como alegoria a passagem de Lewis Carrol em Alice no País das Maravilhas, quando a protagonista pergunta ao gato para onde ela deve ir e o gato então questiona sobre qual é o objetivo da menina. Diante da ignorância de Alice frente a tal pergunta, o gato lhe diz que sem um objetivo, “qualquer caminho” lhe serviria.

A passagem da literatura universal que eu cito é ilustrativa ao dizer que pessoas precisam para trabalhar bem, com eficiência e eficácia, ter clareza de qual é o proposito a seguir e para onde vão, afinal de contas.

O fato, já comprovado cientificamente em inúmeros estudos, nos indica que os seres humanos trabalham melhor quando têm projetos e clareza de que caminho seguir. Assim, as atividades cotidianas passam a fazer sentido: “estou fazendo este trabalho para que esta determinada meta seja atingida, este objetivo alcançado”.

Neste sentido, eu aponto que a determinação de objetivos é importante como um todo na organização e se faz imprescindível para que as tarefas cotidianas tenham um propósito e possam, com isso, serem mais facilmente realizadas.

Portanto, determinar objetivos é uma das atividades mais centrais e importantes para um gestor. Empresas somente podem ser administradas quando objetivos podem ser determinados.

Em certo sentido, é possível compreender a existência de uma organização quando ela tem clareza acerca de seu propósito, seu objetivo.

Mais do que apenas objetivos de maior prazo, é importante que o gestor dê atenção aos objetivos de médio e até curto prazo, como os considerados objetivos operacionais.

E novamente nos referenciando à literatura de Alice no País das Maravilhas, quando a protagonista pergunta ao gato para onde deveria ir e este devolve o questionamento com uma nova pergunta “para onde você deseja chegar, Alice?”.

Ao não saber responder este questionamento, o gato então diz a Alice que, desta forma, qualquer caminho lhe serviria. Esta passagem da literatura nos faz repensar o quanto é imprescindível que humanos e organizações tenham clareza de propósito.

A ciência nos ensina também que seres humanos, quando têm clareza do caminho que devem seguir, quando os objetivos são claramente determinados, tem como resultado um maior engajamento em seu trabalho, a fim de seguir o percurso estipulado e atingir o objetivo que lhes é esperado.

Mais do que apenas estar fazendo uma tarefa, quando há definição dos objetivos, as pessoas tendem mais facilmente a se enxergar como desenvolvedores de projetos em busca do atingimento de algo maior. Isto dá sentido ao caminho traçado no cotidiano da organização. É por isso que a determinação de objetivos é tão importante: uma empresa que só vive o seu dia a dia sem ter clareza sobre aonde vai, não se desenvolve, não aprende, não cresce.

Destaco o papel dos objetivos no processo de aprendizagem de uma organização. Normalmente, estamos habituados a empregar o termo aprendizagem quando nos referimos às pessoas, ou seja, humanos que aprendem ao estudar, ao desenvolverem suas atividades cotidianas, etc. Mas também as organizações aprendem. Vemos que as organizações aprendem quando se alteram, se transformam e tornam-se organizações melhores do que foram no passado. Mas, para que este processo tenha realmente um ganho para a empresa, é recomendado que tais transformações passem pela determinação de objetivos e o acompanhamento do seu atingimento ou não. Refiro-me aqui, especialmente, ao emprego da metodologia denominada PDCA.

Segundo esta técnica japonesa já difundida entre muitos executivos, a melhor maneira de se administrar uma organização passa pela determinação de objetivos, implementação de práticas para o cumprimento destes objetivos e o acompanhamento cotidiano para determinar se os anseios da organização estão, de fato, sendo atingidos.

Mais importante de tudo é o processo de aprendizagem, isto é, porque será que não atingimos tais metas, quais os obstáculos, quais os aprendizados para não mais errar em um mesmo ponto?

Somente quando temos clareza dos objetivos que desejamos atingir é que podemos compreender onde erramos, onde acertamos e onde há pontos de melhoria.

Neste sentindo, portanto, ressalto que os objetivos têm mais do que fim em si mesmo, são instrumentos concretos para desenvolvimento da organização.

Uma organização que tem clareza destes propósitos também sabe identificar quais foram os desvios ocorridos e como eventualmente alterar os objetivos ou modificar as práticas de gestão adotadas.

Para a determinação destes objetivos, em essência, os principais gestões e colaboradores da gestão devem entender dois pontos, essencialmente: primeiro, onde desejamos chegar, quais são os grandes sonhos e anseios, as grandes vocações; e em segundo lugar, quais são os limites, o que conseguimos atingir, quais são as características de mercado, o tamanho deste mercado, a projeção de vendas.

Em certo sentido, determinar objetivos significa um misto de otimismo com realismo. Não me refiro aqui a um tipo de otimismo utópico que leve a construção de objetivos inatingíveis e nem tão pouco o realismo simplista que leve a determinação de objetivos triviais, ou seja, que não dependam de um esforço para o crescimento. Portanto, os objetivos devem ser construídos em um parâmetro dentro das capacidades da organização e que ao mesmo tempo conduzam ao aprimoramento e ao crescimento, que seja de fato realizável e ao mesmo tempo desafiador.

Finalmente, mais do que apenas determinar objetivos, uma organização deve entender como gerenciar os objetivos propostos. Portanto, a gestão de uma empresa não deve ser apenas para os objetivos, mas com os objetivos. Neste sentido os objetivos são considerados instrumentos de aprendizagem.

Além da determinação de objetivos, é recomendado a construção de indicadores de desempenho. Fazendo uma metáfora médica, é como se a redução da temperatura corporal fosse o objetivo e o indicador fosse o termômetro, ou seja, mecanismo por meio do qual se realiza a medição. Um objetivo sem indicador, uma métrica que permite a mensuração, portanto, torna-se inócuo, difícil de se operacionalizar.

Na linha da discussão sobre gerenciamento de objetivos é importante dar destaque à aprendizagem. Muitas vezes, infelizmente, os objetivos são vistos como um fardo para o trabalho dos colaboradores de uma organização, que enxergam frequentemente o não atingimento de um objetivo como um mecanismo de punição, nunca como um mecanismo motivacional. Este é um ponto bastante importante: os objetivos devem servir para os indivíduos aprenderem e se sentirem estimulados ao atingimento de performances elevadas (e possíveis!) e resultados surpreendentes.

Infelizmente, os objetivos são vistos e determinados pelas organizações exclusivamente como alguma coisa que, se não for atingida, levará a repreensões, chegando até ao ponto de estimular uma demissão.

Para que tal paradigma seja quebrado, a recomendação concreta para a empresa é que ela desenvolva sessões de lesson learning, de aprendizado.

Ao fim de um certo ciclo, por exemplo, um mês, estabelece-se um controle para verificação de objetivos e uma discussão aberta, transparente, sem busca de culpados, do porquê determinado objetivo ainda não foi alcançado e quais os meios de juntos, tornarem possível o atingimento do objetivo. Esta é uma forma muito interessante de se estabelecer uma rotina de aprendizagem em volta dos objetivos propostos. A empresa, portanto, deve determinar objetivos e estabelecer rotinas de acompanhamento para alinhamento de estratégia.

A melhor coisa que uma empresa pode fazer é errar diferente a cada ciclo de planejamento, isto é, que os erros do ciclo passado não sejam os mesmos erros do presente. Erros inéditos. A melhor maneira de fazê-los? Ter clareza de onde se quer chegar, ter identificado erros do percurso, de tal maneira que estes não mais sejam cometidos.

Recomenda-se também que a determinação de objetivos seja feita em três níveis: de longo, médio e curto prazo. Muitas empresas, desafortunadamente, observam apenas o curto prazo de suas rotinas e tarefas, se aquele mês fechou as contas e o quanto cresceu em vendas de um mês para o outro. Estabelecer metas de longo prazo, visões de futuro, os grandes desenvolvimentos e os grandes caminhos que a organização deseja seguir, é bastante relevante para dar sentido ao curto prazo.

Neste sentido, recomenda-se desenvolver instrumentos como mapa estratégico por meio da metodologia do Balanced Score Card, onde se determina os objetivos mais amplos de uma empresa. Segundo esta metodologia, os objetivos devem ser desdobrados em quatro dimensões principias: objetivos financeiros; objetivos de relações da empresa com o seu mercado; objetivos ligados às operações, tais como redução de custos, entre outras; e finalmente, os objetivos humanos que estão associados ao desenvolvimento das pessoas que fazem parte da empresa. Segundo este método, os objetivos não podem, portanto, ser apenas ligados às questões financeiras da empresa. Daí advém a expressão Balanced, ou equilibrado, em língua portuguesa.

Este é um aprendizado importante para o gestor: desenvolver objetivos não significa apenas criar metas ligadas às questões monetárias, mas sim, estar atento e dispensar esforços para evoluir tudo aquilo que a empresa necessita para que se tenha sucesso. Em casos em que o desenvolvimento financeiro não signifique o principal objetivo da empresa, é preciso salientar que, ainda assim, ele se torna importante e factível, em virtude do desenvolvimento de relações com o mercado e operações eficientes.

Após o estabelecimento deste mapa estratégico, que tem por objetivo apresentar o caminho de forma clara para que a empresa consiga atingir seus objetivos, a instituição deve, então, estabelecer métodos ágeis de aferição dos objetivos.

A razão destes métodos ágeis é para que os objetivos não fiquem muito distantes, ao contrário, estejam presentes no cotidiano das organizações, como por exemplo, o atingimento de metas para os próximos quinze dias e acompanhamentos diários com rápidas reuniões sobre o status atual do processo de atingimento de objetivos. Tais passos, feitos com eficiência, tornam o dia a dia mais promissor e alinham eventuais desvios de rota.

Em resumo, determine objetivos com clareza, desmembre tais objetivos em dimensões além do financeiro, acompanhe de maneira próxima e diária e, notadamente, enxergue que os objetivos são instrumentos de aprendizagem para todos, inclusive o gestor, tal qual a nota de prova de uma criança, que não deve ser visto como elemento de punição, mas de entendimento de onde se deve melhorar. Faça isso com seu filho e faça isso com sua empresa.

*Edson Barbero é professor de Estratégia e Empreendedorismo e membro do conselho curador da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap).

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