A Síndrome da Impostora e as mulheres no mercado de trabalho

“Mulheres sofrem da Síndrome da Impostora com mais frequência, porque temos lutado por um lugar à mesa com esforço”, avalia Michelle | Foto: divulgação

*Por Michelle Lopes

Nesse 2020, participei de algumas ações em celebração ao Dia das Mulheres. Fiquei lisonjeada com dois convites especiais: para compartilhar um pouco da minha jornada enquanto mulher e profissional da área de tecnologia para as mulheres da Movile e também falar sobre a Síndrome da Impostora para as pessoas da CI&T, colegas de trabalho com quem tenho dividido o cotidiano há quase um ano.

Para mim, essas conversas foram muito enriquecedoras: pensar minha própria trajetória, revisitar meus estudos sobre feminismo e história das mulheres, compartilhar aprendizados e ouvir experiências me tornaram uma pessoa melhor. Pensando nisso, quero propor a vocês algumas reflexões, compartilhando um pouco do que sei e deixando este canal aberto para seguirmos em diálogo sobre o tema.

Antes de tudo… Síndrome da Impostora?
Caso alguém não tenha familiaridade com o termo, explico: a Síndrome do Impostor é o sentimento de ser uma farsa, quando desconfiamos de nossa aptidão para desempenhar uma função, é aquela voz interna que diz “vão descobrir que eu não sou bom o bastante para estar aqui” quando somos reconhecidos ou temos uma oportunidade no trabalho. E ela é extremamente recorrente entre as mulheres. Ouso dizer, inclusive, que com aparições mais ou menos recorrentes, a Síndrome da Impostora vem para todas nós.

Quando digo que é uma síndrome “que vem”, não quero dizer que ela surge aleatoriamente sem motivo. Mulheres sofrem da Síndrome da Impostora com mais frequência, porque temos lutado por um lugar à mesa com esforço, como diria Sheryl Sandberg, porque o sentar-se à mesa como iguais no ambiente corporativo não é algo natural, ensinado ou estimulado dentro do dito “universo feminino”.

Um exemplo real
O ano é 2009 e uma Michelle pré-vestibulanda faz aulas particulares de matemática. Buscando uma vaga no curso de Jornalismo, Michelle sempre foi péssima com números e precisa ser um pouco melhor para ingressar na universidade. Essa mesma Michelle, que escreve tão bem, lê mil livros, faz um milhão de coisas tão interessantes e tão inteligentes como também são os estudos matemáticos ouve de seu professor particular: “Aulas para entrar em Jornalismo? Isso é curso de esperar marido! Se estudar o básico já está bom”.

Essa mesma Michelle, já graduanda e estagiária, também ouviu que tinha algo que a marcaria para sempre: “É bonita demais para trabalhar em jornal impresso, hein! Devia querer ser garota do tempo”. Uma objetificação da “garota do tempo” que, por sinal, tem tanto estudo e dedicação quanto uma jornalista de veículos impressos.

Esses são só dois breves relatos de algo muito rotineiro na vida acadêmica e profissional de uma mulher, e possui nome: patriarcado, que é a mesma maneira de se referir ao sexismo institucionalizado. Sexismo, esclareço, se assemelha à concepção do machismo, em que temos um gênero (masculino) maior e melhor do que outro (feminino). Porém, quando falamos sobre sexismo vamos além e nos referimos ao conjunto de atitudes e pensamentos que discriminam pessoas de acordo com seu sexo.

É preciso falar de teoria…
Propositalmente falo sobre alguns conceitos teóricos, porque precisamos nos familiarizar com termos. Sabemos identificar mais facilmente o que previamente conhecemos, e só assim, podemos combater de forma assertiva. Tenho certeza que todos desejamos viver em um mundo melhor, onde existam oportunidades e segurança para todas as pessoas, independentemente de gênero, raça ou classe. E falar sobre essas questões, refletir e estudar nos ajuda a promover ações que gerem mudanças reais.

Voltando à Síndrome da Impostora, usei duas breves experiências minhas para exemplificar que essa síndrome não surge à toa, mas porque a sociedade está constantemente exercendo forças sobre todas as mulheres: temos o sexismo, a pressão estética, a pressão social. Temos os estereótipos de gênero, os papéis que são esperados que nós desempenhemos, temos uma frequente imposição de padrões e pensamentos pelo simples fatos de sermos mulheres.

E é com essa carga que as mulheres chegam ao mercado de trabalho. Dentro das empresas, por sua vez, as situações não são mais fáceis do que fora delas, e também existe uma série de problemas, como mansplaining (quando homens explicam coisas às mulheres de maneira condescendente), manterrupting (quando homens interrompem mulheres), desigualdade salarial, múltiplas jornadas, falta de mentoria, falta de sororidade, etc.

E, além de todas essas dificuldades próprias de seu gênero, há também que pontuarmos a discriminação racial que sofrem as mulheres negras, nesse racismo estrutural de nossa sociedade.

Essa é apenas uma pequena lista de algumas dificuldades que as mulheres encontram no ambiente corporativo que demonstram como a Síndrome da Impostora não surge espontaneamente com mais frequência entre as mulheres. Ela é decorrência de um acúmulo de pressões e dificuldades que encontramos na sociedade, no âmbito doméstico, nas empresas. E as consequências são catastróficas!

Em uma sociedade ou empresa onde mulheres se sentem impostoras, inseguras para o desempenho de suas próprias atividades, temos menos criatividade, menos ousadia, menos aprendizado e crescimento. É interessante colocar aqui que mulheres, inclusive, se candidatam menos para vagas de emprego do que homens. Um relatório feito pela Hewlett-Packard mostrou que enquanto elas se aplicam apenas se preencherem 100% dos requisitos da vaga, eles se consideram aptos para o papel quando preenchem 60%!

E agora?
Observar como as mulheres se comportam no mercado de trabalho e como a sociedade favorece tais comportamentos é fundamental para que possamos tornar o mercado (e o mundo) um lugar melhor.

Precisamos falar sobre teoria, trocar experiências, compartilhar aprendizados – não apenas entre mulheres, mas também entre homens. Todas as pessoas são responsáveis por tornar nossos ambientes de trabalho saudáveis, porque isso colabora para que as pessoas se sintam seguras também fora deles.

A conscientização é o único caminho para identificar o sexismo (interno e externo) e combater a Síndrome da Impostora, fortalecendo cada vez mais as nossas mulheres e as impulsionando para que sejam profissionais brilhantes – se assim quiserem! Como diria a teórica e feminista bell hooks:

“Feminismo é um movimento para acabar com o sexismo, exploração sexista e opressão. Para acabar com o patriarcado (outra maneira de nomear o sexismo institucionalizado), precisamos deixar claro que todos nós participamos da disseminação do sexismo, até mudarmos a consciência e o coração até desapegarmos de pensamentos e ações sexistas e substituí-los por pensamentos e ações feministas”.

Deixo o convite para que possamos falar cada vez mais sobre isso. Mulheres, levantem sua voz! Conversem com as outras mulheres do seu trabalho, mostrem que elas não estão sozinhas e colaborem para que elas sejam profissionalmente reconhecidas e se desenvolvam. Homens, observem os ambientes onde trabalham e colaborem para que todas as mulheres se sintam confortáveis, seguras e tenham oportunidades e espaços iguais aos seus. Juntos transformamos o mundo – e eu acredito verdadeiramente nisso.

*Michelle Lopes é analista de Marketing Digital da CI&T, multinacional especializada em transformação digital, e também se dedica aos estudos de gênero e diversidade.

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