Entenda como a Venezuela tornou-se um dos países que mais negociaram Bitcoin em 2019

Fonte: BlueBenx

*Por Roberto Cardassi

Observar a história do Bitcoin, sua trajetória desde o surgimento, as adesões e utilizações que ele recebe ao longo do tempo nos ajuda a compreender como o mercado de criptomoedas está se desenvolvendo e se consolidando globalmente. Pensando nisso, passei a acompanhar de perto e investigar a fundo algumas características em torno da moeda. Analisei dados sobre o Bitcoin que são valiosos para a compreensão do mercado. Durante este diagnóstico, o que mais chamou a minha atenção foi avaliar os países que mais negociaram Bitcoin em 2019.

Minha maior surpresa foi ver a Venezuela crescendo seu volume de negociações de maneira surpreendente em 2019. Para ser mais exato, no ano passado, o país aumentou em 4 vezes seu volume de transações em comparação a 2018. Esse crescimento colocou a Venezuela em quarto lugar no ranking global. Atrás apenas de Estados Unidos, Rússia e Reino Unido.

Se analisarmos o contexto econômico da Venezuela veremos que a adoção do Bitcoin torna-se, na verdade, muito justificável.

Sansões econômicas
Desde 2018 o país vem sofrendo bloqueios econômicos dos Estados Unidos. Em 2019 o governo americano impôs sanções totais. Inclusive congelando todos os bens do governo Venezuelano nos Estados Unidos e proibindo transações. Há também relatos de autoridades venezuelanas confiscando ouro e dinheiro.

Isolada economicamente. Sem ter para quem vender. Sem capital externo entrando no país o Bitcoin tornou-se uma alternativa para contornar as sanções e minimizar as chances dos ativos serem apreendidos.

Petro (PTR)
Não podemos esquecer que em 2018 o país criou sua própria criptomoeda, a Petro (PTR). O projeto nasceu com o objetivo de contornar o embargo econômico e devolver para a Venezuela condições de participar da economia global. A criptomoeda estatal está lastreada em um barril de petróleo venezuelano. Ela é aceita como forma de pagamento de impostos, taxas, contribuições e serviços públicos nacionais. Durante seu lançamento o governo se comprometeu a promover a utilização da Petro no mercado interno. Além disso, fazer esforços para que a cripto seja aceita em todo o mundo.

A iniciativa tornou a Venezuela um dos países pioneiros na adoção de um cripto ativo nacional. Enquanto isso, as nações consideradas aderentes a inovação financeira ou com um posicionamento significativo nos comitês financeiros internacionais, sempre se pronunciaram contra ou indiferente ao Bitcoin.

Inflação
Outro fator que agrava a situação econômica é o caos inflacionário e as políticas econômicas do atual presidente Nicolas Maduro. A impressão constante de mais dinheiro e a intervenção estatal no controle de preços, fizeram com que a moeda nacional e os cartões de crédito se tornassem quase que inúteis dentro do país. Impulsionando o uso e a adoção de uma economia digital indireta e descentralizada do Estado.

Sob essa perspectiva fica fácil compreender como o Bitcoin tornou-se uma alternativa para que o país não sucumbisse completamente. A Venezuela, até o momento, é o maior exemplo de como a transformação do dinheiro tradicional para o digital pode ser uma alternativa econômica viável. Mesmo assim, ver o país figurando no “top cinco” causa certa surpresa. Afinal ele ultrapassou a China e está brigando quase de igual para igual com o terceiro lugar ocupado pelo Reino Unido.

Será que em 2020 a China vai recuperar seu posto entre os países que mais negociaram Bitcoin? A resposta mais direta que consigo dar neste momento é que é impossível prever. Até 2017 a China ocupava o primeiro lugar neste ranking dos países que mais negociaram Bitcoins. Enquanto isso os Estados Unidos estava em quarto lugar. Em pouco tempo a economia americana ascendeu rapidamente. O que acabou revelando uma manobra para captar esse mercado e custodiar boa parte do volume de Bitcoins negociados.

O fato da maior economia do mundo em volume financeiro e em geração de riqueza também ter conquistado o primeiro lugar em negociação de Bitcoins revela uma tendência em relação ao mercado digital e a consolidação das criptomoedas como uma reserva de valor.

Esse rápido crescimento e a distância que o os Estado Unidos já impôs em relação ao segundo colocado, mostra que dificilmente o país perderá o primeiro lugar. Ao menos não dentro de um horizonte próximo. Sendo assim, em 2020 a China, que já foi o maior mercado mundial em mineração e custódia de Bitcoins, terá de brigar por posições com o segundo, terceiro e quarto colocado. Possivelmente, ao final deste ano, a economia americana vai ter tomando distância ainda maior. Consolidando a sua posição entre os países que mais negociaram Bitcoins.

Onde está o Brasil nesse gráfico?
Não é surpresa nenhuma que o Brasil esteja tão atrás das grandes economias. Na verdade, observar nossa posição confirma a maneira como ainda nos posicionamos globalmente. Somos um mercado onde as inovações financeiras demoram a acontecer. E existe mais de um motivo pra isso, sejam fatores políticos, estruturais ou por dominâncias de mercado e este é um comportamento historicamente conhecido.

Alguns dos fatores que fazem com que o Brasil seja irrelevante no volume de negociações de Bitcoin, comparado aos maiores países neste mercado, pode ser classificados como: falta de conhecimento, medo, indiferença, excesso de conservadorismo ou até mesmo influência das crenças e ensinamentos de seus antepassados.

Por aqui, a adoção do Bitcoin e das criptomoedas deve acontecer em um processo mais lento e gradativo. Assim como em outros movimentos econômicos, nossa participação ocorrerá com certo atraso. No entanto, essa é uma tendência irrefreável que irá acontecer cedo ou tarde.

Por outro lado, mesmo com certo atraso, o mercado nacional está encontrando caminhos para que a inovação financeira aconteça. O bom da tecnologia é que ela é um meio eficaz para democratizar o acesso aos avanços em relação ao mercado de ativos digitais. Já faz 10 anos que o Bitcoin foi criado e devemos incentivar que ele seja um catalisador de mudanças.

É preciso olhar para o futuro, vislumbrar as possibilidades que surgem com a adoção da criptomoeda para muito além do cunho de investimento, mas também observando as oportunidades na transformação econômica e em uma maior competitividade com os grande bancos.

*Roberto Cardassi é fundador e CEO da BlueBenx, fintech especializada em produtos e negócios com Blockchain, Cripto Ativos e Security Tokens.

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