O grito do ABC e as decisões de Doria

Governador João Doria durante entrevista coletiva | Foto: Governo do Estado de SP

Carlos Balladas 

Até o momento, o governador João Doria não cedeu à pressão dos prefeitos em flexibilizar a quarentena no ABC. Promete, talvez, fazê-lo na semana próxima.

Os prefeitos do ABC, pertencentes ao mesmo partido do governador, o PSDB, procederam como manda o protocolo da Organização Mundial da Saúde (OMS) e seguiram igualmente as orientações de determinações do governo do estado.

As maiores cidades do ABC, em especial São Bernardo do Campo, Santo André e São Caetano do Sul, nunca estiveram entre as classificadas como ótimas no ranking do isolamento social, fazendo com que as curvas de casos e mortes por covid 19 no ABC não arrefeçam, pelo contrário, tornaram-se mais agudas nos últimos dias. Culpa dos prefeitos? Certamente, não. A população brasileira vive uma dicotomia relativa ao covid 19, provocada pelo presidente da República, Jair Bolsonaro, e por líderes religiosos que minimizam ou negam os efeitos devastadores da pandemia.

Moro em Santo André. Não é raro ver adultos, e até crianças, sem máscaras, conversando nas calçadas, defronte a casas comerciais e em ônibus, indiferentes aos males que podem causar a si e a outrem. Me dá arrepios na espinha ao presenciar cenas como estas.
A região metropolitana de São Paulo é o mais importante polo econômico não só do Brasil, mas de toda a América do Sul. Deixar a maioria dos negócios inertes nesta região causa um efeito dominó de paralisia econômica em milhares de cadeias produtivas do estado e do País.

Doria e Bruno Covas, desde março, preparam a cidade de São Paulo para o enfrentamento da pandemia, aparelhando-a com os recursos da medicina possíveis impostos pelas limitações logísticas e orçamentárias. Importante ressaltar que não há conhecimento científico no mundo capaz de impor qualquer entrave à infecção pela covid 19, a não ser pelo distanciamento social entre as pessoas. Tratamento algum, seja por cloroquina, ou por qualquer outra droga, se mostra totalmente eficaz para abater os efeitos do implacável vírus. Acolher e socorrer as vítimas infectadas com os meios disponíveis, mesmo sem garantias absolutas de cura, é o que resta a fazer.

Colocar a Grande São Paulo fora da quarentena fará com que a maior roda da economia nacional volte a girar, não há dúvida. Mas isto deve ser feito com critérios que não acarretem estresse no sistema de saúde montado para o socorro dos infectados. E esta nos parece a principal preocupação do governador Doria. O estabelecimento de critérios para uma flexibilização paulatina deve se impor às manifestações intempestivas de governantes ou líderes de entidades empresariais. O diálogo para a construção de modelos que preservem a vida de milhares de paulistas deve ser o norte para sairmos todos da prostração que nos encontramos. Inegável ver no governador Doria a disposição de conversar com toda sociedade sobre o mal que nos abate. Prova cabal são as coletivas de imprensa realizadas todos os dias por ele e por sua equipe. Não o vemos fugir de pergunta alguma, não esbraveja, não ofende jornalistas, não reclama de indagação alguma.

E a sinceridade de Doria é veemente. O que fazemos hoje podemos não fazer amanhã, afirma em todas as suas aparições públicas. Esta afirmação está baseada acertadamente no que ocorre no resto do mundo. Países que optaram por não adotarem medidas de isolamento social, estão fazendo agora. Em regiões do Brasil onde medidas de relaxamento da quarentena ocorreram, estão sendo revistas.

Os brados de hoje para uma flexibilização sem critérios podem se tornar gritos de dor no futuro.

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