O que o fechamento da Ford ensina ao mundo das corporações e startups

*Por Felipe Novaes

Se o brasileiro é um apaixonado por carro, como diz a propaganda, ele agora anda com outro amor na praça: a inovação. Passada a comoção pelo fechamento das fábricas da Ford, vida que segue. A decisão da montadora foi muito simbólica, pois corre paralela a um movimento de recordes históricos no e-commerce, alto crescimento das startups no Brasil e aceleração da transformação digital de grandes empresas – como se um antigo mundo fechasse para inaugurar outro, mais jovem e cheio de fôlego. Com a inovação, as organizações precisam entender que elas estão trocando seus próprios carros na garagem por um foguete transformador. E o céu nunca é o limite.

Na edição mais recente do respeitado prêmio Valor Inovação, em 2020, a Natura foi considerada a empresa mais inovadora do Brasil. As primeiras duas marcas do setor automotivo a figurarem na lista formada por 150 grandes empresas foram Bosch, que investe em autopeças e manutenção, e AGCO, reconhecida pela produção de veículos do setor agrícola – respectivamente na 5ª e na 10ª posições. Os automóveis que compõem a nossa paisagem urbana, porém, se revelaram distantes do pelotão inicial, com a Fiat Chrysler Automobile em 38º lugar, e a Volkswagen, em 50º. A Ford não apareceu. Teria reduzido o apetite pelo pioneirismo que sempre marcou a sua história no país?

Diante das notícias de encerramento da produção, imprensa e governo se mobilizaram. Uma das principais perguntas foi: como o Brasil ocuparia esse vazio? Há especialistas que preveem inclusive redução do PIB, em razão da queda na produção automotiva. Mesmo assim, apesar de muito duro, o impacto da saída de uma Ford hoje não é igual ao que teria sido em outras épocas. Se o Brasil já teve um presidente que pregava que governar era abrir estradas, agora podemos dizer que a verdadeira liderança é incentivar a inovação, o desenvolvimento e a aplicação de novas tecnologias.

Enquanto a Ford empregava em suas fábricas pouco mais de 6 mil funcionários, as startups brasileiras geram pelo menos 50 mil vagas, de acordo com a Abstartups, sem contar as oportunidades autônomas em aplicativos. Empresas de entrega e motoristas por aplicativo são fonte de renda principal para quase 4 milhões de trabalhadores, conforme indica o IBGE.

Os números impressionam. As scale-ups, startups em acelerado ritmo de crescimento, são responsáveis por 50% dos novos empregos do país, mesmo representando apenas 1% do total de empresas brasileiras, ainda segundo a Abstartups. Em contrapartida, grandes organizações, como a Ford, costumam seguir o caminho inverso: encolher, ter cada vez menos funcionários para buscar eficiência. Em sua maioria, elas reciclam empregos. A renovação se dá quando um colaborador se aposenta ou simplesmente sai e precisa ser substituído, o que é totalmente diferente da nova economia. Esta vem criando vagas novíssimas, que exigem habilidades diferentes das que hoje são aplicadas em fábricas como as da Ford.

Estamos passando para um cenário em que boa parte da força motriz será guiada menos por gigantes centenárias e mais por empresas menores. A população economicamente ativa vem sendo composta cada vez mais pela Geração Millenium. Essas pessoas se tornam programadores, desenvolvedores, designers e, seja qual for a carreira, gente em geral mais familiarizada com a lógica digital, criada e educada nesse contexto.

Apesar de grandes corporações buscarem esse perfil para preencher seus quadros, são as demandas de startups que, de fato, vão impulsionar o mercado de trabalho. Esse movimento de pequenos e médios players será fundamental para a economia girar. E as grandes corporações podem ter um papel fundamental na ajuda do crescimento dessas startups, bem como na atualização do seu próprio negócio. Uma das estratégias é a Inovação Aberta, modelo em que a empresa ganha eficiência a partir da contratação, criação ou investimento em novas startups.

No Brasil essa forma de atuação ganha força. A 1ª pesquisa BR Angels/Firstcom revelou que 46% das grandes empresas brasileiras realizaram investimentos em startups em 2020. Um estudo da Distrito apontou que no mesmo ano foram realizados aportes totais de US$ 3,1 bilhões em startups brasileiras, um recorde histórico.

O insucesso da Ford não se trata de um modelo de indústria superado. A Associação Nacional de Veículos Automotores (Anfavea) prevê um aumento de 14% nas vendas de automóveis de passeio, por exemplo, para 2021. E a própria indústria automobilística, assim como outras, pode se beneficiar com a inovação para acelerar. No Reino Unido, para cada libra investida em inovação, o governo obtém retorno de 2,5 libras, segundo o Departamento de Comércio Internacional. E aqui no Brasil? O que o governo tem feito para incentivar a inovação?

Vivemos um momento especial, com a expectativa de evolução a partir do Marco Legal das Startups, que embora precise ser aperfeiçoado e agregar outros pontos, prevê desburocratizar processos e facilitar investimentos. A nova regulamentação pode fazer o número de startups brasileiras multiplicar de 5 a 10 vezes na próxima década. Desde 2000, a Ford e outras montadoras receberam quase US$ 70 bilhões em incentivos fiscais da União. Se montantes nessa proporção fossem investidos na criação de startups, talvez tivéssemos performance ainda mais expressiva.

E o resultado? Em 2020, enquanto a Ford aguardava para encerrar sua produção no país, o faturamento das cerca de 500 startups do Cubo, hub de inovação do Itaú, atingiu R$ 4,4 bilhões, um salto de 1.552% em relação ao ano anterior. A inovação no Brasil é um foguete que já decolou e tem tudo para ir ainda mais longe.

*Felipe Novaes é sócio e cofundador da The Bakery, empresa global de inovação corporativa, e advisor de empreendedores de tecnologia. Atuou com gerenciamento de projetos e novas tecnologias em grandes corporações, como Avon, Syngenta e Vale, e foi cofundador de uma startup de educação em Nova York investida pelo inventor do Cloud Computing.

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