“Fábrica de Cultura é um projetinho perto do Museu”, compara Luiz Marinho

Ex-prefeito afirma que, caso eleito no pleito deste ano, concluirá o projeto do Museu do Trabalho e do Trabahador | Foto: Reprodução

Em virtude da pandemia de Covid-19, as discussões sobre saúde pública voltaram à pauta em todo o mundo. Na segunda parte da entrevista com o pré-candidato a prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho (PT), esse foi um dos temas abordados – a primeira parte da conversa, em que foram comentados temas como economia e geração de emprego, está disponível aqui.

Marinho ressalta que a cidade possui boa estrutura na área, mas que os números da pandemia demonstram que houve falhas na “gestão sanitária” da cidade. O pré-candidato atacou o atual prefeito Orlando Morando: “Ele não conseguiu entregar todas as obras que eu deixei em andamento”, afirma.

Entre outras coisas, Marinho afirmou que, caso eleito no próximo pleito, retomará o projeto do Museu do Trabalho e do Trabalhador, obra descontinuada pela atual gestão para a criação de uma Fábrica de Cultura, em parceria com o governo do estado. “A Fábrica de Cultura é um projetinho perto do Museu”, dispara.

Negócios em Movimento (NM) – São Bernardo do Campo é a cidade do ABC que registrou mais óbitos em decorrência da Covid-19. Quais as razões que levaram a cidade a ter esses números?

Luiz Marinho (LM) – O Instituto Votorantim fez um estudo das cidades e constatou que São Bernardo tem uma boa rede (de saúde), considerou que São Bernardo seja a mais preparada do estado e a segunda mais preparada do Brasil para o enfrentamento da Covid.

O que o Instituto analisou, para valer: em especial a rede de saúde, as UBSs (Unidade Básica de Saúde), as UPAs (Unidade de Pronto Atendimento), os hospitais… Isso foi criado durante meu governo.

Agora, quando você vai olhar o que aconteceu durante a pandemia, porque não basta somente os equipamentos de saúde, é preciso de gestão sanitária, de gestão para poder orientar, liderar, coordenar o nosso povo. Infelizmente isso não aconteceu nem no Brasil, nem no estado de São Paulo, nem em São Bernardo. São Bernardo tem a melhor rede, mas é uma das cidades onde mais morrem por Covid-19.

O prefeito errou em vários aspectos. Um deles, isso aconteceu também com o governador João Doria, que é ‘chegadíssimo’ no Orlando, foi restringir a quantidade de veículos rodantes. O Doria restringiu o Metrô e trem no começo da pandemia, o prefeito da capital a mesma coisa, ainda criaram o tal do rodízio.

Em São Bernardo, o Orlando restringiu também a quantidade de ônibus rodantes, sendo que o correto era restringir a quantidade de pessoas dentro dos veículos, não a quantidade de veículos. Então, quando restringiu que a frota rodasse, induziu a superlotação do transporte público, portanto, acelerou, no começo da pandemia, o processo de contaminação que levou gradativamente a muita gente morrer.

No começo da pandemia eu escrevi uma carta aos prefeitos do ABC, através do Consórcio. Sugeri o seguinte: era preciso testagem em massa por território e, na medida em que constatasse algum contaminado, tirar do seio da família, da comunidade, especialmente na periferia, e colocar num centro de acolhimento e isolamento que poderia se dar nas escolas, praças esportivas e poderia se dar até na rede hoteleira que estava ociosa. Fazer a mesma coisa com os profissionais de saúde, para que eles não voltassem para casa, para evitar esse processo de contaminação. Infelizmente isso não aconteceu, o prefeito não deu a mínima para a sugestão.

NM – No período em que o senhor esteve fora da Prefeitura, o senhor se candidatou a governador e “rodou” o estado inteiro e deve ter dialogado com prefeitos e gestores de várias regiões. O senhor volta com algum novo projeto para a saúde, para melhorar a gestão e para que os recursos sejam aplicados assertivamente?

LM – Com certeza, nós temos coisas a agregar, até porque a tecnologia avançou nesses quatro anos. É possível plenamente falar de telemedicina, de agregar valores aqui. Mas, essencialmente, nós temos que reestruturar a saúde.

Quando eu cheguei em 2009, nós tínhamos em São Bernardo a ausência do SAMU, das UPAs, de hospitais que dessem retaguarda corretamente. A rede de UBSs era um lixo. Nós refizemos 100% da UBSs e ampliamos a rede, iniciamos o Hospital de Emergência. Enfim, nós reestruturamos totalmente a saúde da cidade, criamos o programa de internação domiciliar, programa que tivemos sucesso absoluto, policlínicas, implantação da saúde da família… E nisso o Orlando deu uma bela desorganizada, porque infelizmente ele demitiu um conjunto de profissionais gabaritados e capacitados, para poder contratar um bando de cabo eleitoral, o que desorganizou a saúde e nós vamos ter que reorganizar de novo. Tem muita reclamação da população nesse sentido.

Nós vamos, por exemplo, voltar a falar do Mais Médicos. ‘Ah, mas o Bolsonaro não quer’. Nós podemos fazer pelo Consórcio (Intermunicipal do Grande ABC), assim como o Consórcio de governadores do Nordeste está fazendo.

Nós temos como buscar suprir as várias dificuldades através da organização da governança regional, o que nós também temos que reorganizar, porque o Orlando também desmontou. Na presidência do Consórcio ele acabou destruindo boa parte da governança, que nós tínhamos na região.

NM – Saúde será a prioridade do seu mandato?

LM – Evidentemente, saúde será de novo uma das prioridades, porque saúde sempre precisa ser olhada com carinho. Quem pensa em gente pensa saúde, quem pensa em gente pensa em inclusão social, respeito, em gerar emprego, gerar oportunidade.

Fomento da economia e educação também serão prioridades, assim como habitação, porque ela é essencial. Em 2009, um trovão era motivo para milhares de pessoas não dormirem em São Bernardo. Nós organizamos diversas favelas e criamos as condições para moradias decentes, seguras, habitáveis decentemente.

Nós tínhamos famílias que moravam em alojamento a 16 anos de forma desrespeitosa. Eram galpões enormes de madeirite, um banheiro para oito, nove famílias. Olha a condição de insalubridade, de precariedade, de crueldade. Fomos o governo que mais construiu habitação social na história da cidade. Nós investimos 8,3% do orçamento nos oito anos, enquanto a média das cidades brasileiras é 0,8% em habitação. Veja só a dimensão do que foi prioridade em nosso governo. E voltará a ser prioridade.

NM – Na última eleição houve a chamada “onda azul” impulsionada pela eleição de João Doria na cidade de São Paulo, o que contribuiu para a vitória de diversos candidatos do PSDB no ABC. Agora, temos o elemento Bolsonaro. Politicamente, o que o senhor espera dessa eleição? Há condições para seu partido retomar prefeituras no ABC?

LM – Veio a onda do ódio, da raiva, da falta de esperança, comandada pelo Doria e Orlando, que são ‘unha e carne’. Hoje parece que Orlando nem quer muita proximidade com o Doria, de tão mal que ele anda de avaliação. E depois o Doria se agarrou no Bolsonaro para se eleger governador e hoje também está aí fugindo do Bolsonaro. Mas são tudo ‘farinha do mesmo saco’, exatamente o mesmo DNA.

A urna não é lugar de ódio e de raiva, é lugar de esperança. O ódio traz governos que não cuidam de gente. Se você analisar o governo do Orlando Morando, ao invés de cuidar da cidade, ele fez desmantelar. Ele parou todas as obras que eu deixei em andamento para depois mentir para a cidade dizendo que eu deixei obra parada, para depois entregar as que ele conseguiu entregar próximo ao calendário eleitoral. Ele não conseguiu entregar todas as obras que eu deixei em andamento, não conseguiu tocar todos os projetos que eu deixei.

Uma cidade tem que ser olhada como ser vivo, quem sucede tem que olhar os projetos criados e tocar. Ele abandonou todos os projetos. Os corredores (viários): não vai terminar porque ele deixou parados dois anos, se não, poderia ter terminado o corredor Alvarenga, o corredor Leste-Oeste. Não vai terminar. Se quer ele conseguiu terminar o que eu deixei preparado. Onde não tinha obra que eu deixei em construção, ele não fez nada.

NM – Nesta gestão o projeto do Museu do Trabalho e do Trabalhador se transformou em Fábrica de Cultura, em parceria com o governo estadual. Num possível mandato, o senhor manterá o projeto da Fábrica de Cultura?

LM – A Fábrica de Cultura é um projetinho perto do Museu. Projetinho. O museu é o seguinte: tem dois prédios, vazados no meio. De um lado, é o projeto museológico. Do outro lado, era para atividades como (aquelas oferecidas pela) Fábrica de Cultura, por exemplo. Ali pode ficar a Fábrica de Cultura, não tem problema ficar. Vai depender, evidentemente, do tipo de convênio que foi feito, se ele é benéfico ou não é benéfico, mas ali cabem muitas oficinas, então já estava preparado para isso.

Agora, me parece que lá no Museu ele não fez absolutamente nada. Espero que não faça mesmo, para não atrapalhar o projeto, porque nós vamos resgatar. Nós vamos terminar, vamos concluir a obra do Museu. É uma grande obra não somente para São Bernardo, mas para o Brasil, é um projeto referência internacional. Espero que ele não faça muito estrago lá.

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