Saúde animal: cortar o rabo de cães é crime

O corte da cauda afeta diretamente a comunicação dos cães e no equilíbrio | Foto: divulgação

Quando o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) publicou a Resolução nº 1027, em 2013, cortar rabo de cachorro passou a ser crime. A penalidade para quem continuar com a prática é detenção de três meses a um ano e multa. Para os veterinários, o risco é ter seu registro suspenso e, com isso, não poderão mais atuar na área. Porém a veterinário do Vet Quality Centro Veterinário 24h, Livia Romeiro, ressalta que em casos de acidentes ou tumores na região é possível realizar o procedimento.

Vale destacar que a caudectomia – como é chamado o procedimento – é proibida quando feita apenas para fins estéticos. O procedimento de cortar o rabo dos cães surgiu no contexto de caça e trabalho no campo. Para evitar o sangramento dessa área em conflitos com outros animais, os cães de caça tinham a cauda cortada. O ferimento poderia causar a morte em casos de infecção.

Naquele contexto, a prática poderia ter uma justificativa, afinal, não era tão simples encontrar um veterinário próximo para socorrer o cachorro em casos de traumas e sangramentos. Porém, atualmente, como os cães têm como principal função a companhia, a caudectomia perdeu seu sentido e propósito.

Outros motivos que tentavam justificar a prática eram por questões de higiene e padrões de raça consideradas como oficiais por federações em alguns países.

Criadores também são afetados pela lei. Apesar de não poderem ser punidos pelo CFMV, ainda estão sujeitos às penalidades descritas acima. De acordo com o Artigo 39 da Lei de Crimes Ambientais, maltratar animais é proibido e isso inclui a prática de cortar o rabo dos cachorros.

As raças mais afetadas por essa prática
Talvez as duas raças mais afetadas pela prática da caudectomia sejam o doberman e o rottweiler. Esses cães foram muito utilizados antigamente nas funções de caça, guarda e trabalho no campo. Por isso, tinham o rabo cortado com o objetivo de reduzir a área de atrito em confrontos com outros animais e até pessoas.

Com o tempo, parece ter sido fixado um padrão para essas raças no tocante a ter a cauda cortada. Atualmente, alguns podem até mesmo considerar que esses cães, de fato, devem passar pela operação para seguir esse padrão.

No caso do doberman, além do rabo, a prática de cortar as orelhas — conchectomia — também é vista como necessária para manter a estética da raça e para melhorar o desempenho na função de guarda.

Porém, como já vimos, tais procedimentos perderam seu sentido, justamente, pela função principal que os cães desempenham em nossa sociedade: a companhia.

Outras raças que também são afetadas pela caudectomia: pinscher, boxer e poodle.
A influência dos padrões das raças

Outro fator que merece destaque é a força que padrões estéticos de raças exerceram sobre a prática da caudectomia e conchectomia. Afinal, é difícil imaginar um cachorro com orelhas para baixo e rabo comprido quando pensamos em doberman. Pelo contrário. A imagem que vem é de um cão com orelhas pontiagudas e rabo cortado.

No documento que define os padrões oficiais das raças, elaborado pela Federação Cinológica Internacional (FCI), podemos ver a indicação do corte do rabo do doberman, desde 1994, em países onde a prática é permitida. Somente em 2015 o padrão é alterado indicando que orelhas e cauda devem permanecer íntegras e naturais.

Isso explica porque muitos criadores cortavam o rabo e as orelhas desse cachorro.
Sendo assim, com a mudança das especificações do padrão da raça, a caudectomia não é mais necessária nem recomendada. O cachorro pode obter pedigree e participar de exposições e competições normalmente, preservando suas características naturais.

Por que essa lei entrou em vigor?
Por ser um procedimento puramente estético, a caudectomia é desnecessária e deve ser evitada, destaca a veterinária. Além de dor e sofrimento nos cães, a prática causa outros problemas, como complicações no equilíbrio dos cães. A cauda é um prolongamento da coluna vertebral e possui terminações nervosas, que influenciam todo o organismo do animal. Sendo assim, a caudectomia causa desequilíbrio nos cães.

Interferência na comunicação
Os cães utilizam a cauda para comunicação entre si e com seus donos. Através do movimento e posição dela, podem expressar alegria, dominância, medo e submissão.
Ajuda também a esconder ou espalhar seu cheiro, o que demonstra intenção de acasalar. Portanto, o corte da cauda afeta diretamente a comunicação dos cães.

Em 2008, por meio da resolução n° 877, o Conselho Federal de Medicina Veterinária já havia proibido outros procedimentos semelhantes, como a conchectomia (levantar as orelhas) e a cordectomia (retirar as cordas vocais), mas a caudectomia era apenas não recomendada. Atualmente, porém, está na lista de práticas proibidas, a não ser por indicações clínicas.

Consequências da proibição
Com a proibição, alguns veterinários apontam um crescimento na prática da caudectomia doméstica.

Os criadores, ao levarem a ninhada para passar pelo procedimento em uma clínica veterinária, deparam-se com a proibição, voltam para casa e procuram fazer por conta própria. Isso aumenta o risco de infecções e outras complicações devido ao processo feito incorretamente.

Em casos de procedimentos ilegais como esse, os responsáveis podem ser processados, bastando para isso uma denúncia feita junto aos órgãos competentes. É importante lembrar que, atualmente, o procedimento é considerado crime ambiental.

Além disso, documentos oficiais que definem o padrão das raças defendem, atualmente, que os cães mantenham a cauda íntegra, dispensando totalmente o procedimento de cortar o rabo dos cachorros.

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