A quarta revolução industrial já é uma realidade

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Congresso organizado pela Fiesp no início do mês reuniu palestrantes internacionais para debater o assunto

Inglaterra, século XVIII. Os avanços da ciência e os fatos ocorridos neste país, especialmente na segunda metade do século, mudaram os rumos do mundo. As evoluções tecnológicas propiciaram o início da produção mecânica por meio do auxílio da energia à vapor. Era a primeira revolução industrial, que permitiu o aumento da produtividade.

A industrialização seguiu firme, se espalhou pelo mundo e foi seguida, até então, por mais duas revoluções industrias: no século XIX, a introdução de linha de montagens nas fábricas, com o advento da energia elétrica; e, mais recentemente, por volta das décadas de 1960 e 1970, a aplicação de componentes eletrônicos para uma produção mais automatizada.

2017. A evolução tecnológica atinge uma velocidade altíssima e o lançamento de novos produtos, inovadores, é cada vez maior. Paralelamente a este processo, estamos vivenciando a chegada da Indústria 4.0, isto é, a quarta revolução industrial.

O termo e os conceitos dessa nova ruptura no setor industrial surgiram na Alemanha, em 2011, e tratam da interação digital de etapas da cadeia produtiva. Em outras palavras, a indústria 4.0 é marcada pelo aumento da informatização na indústria, no qual máquinas e equipamentos passam a ser integrados por redes de internet.

Desta forma, os processos de produção tendem a se tornar cada vez mais eficientes, autônomos e customizáveis. Por meio da conexão de máquinas, sistemas e ativos, as empresas poderão criar redes inteligentes ao longo de toda a cadeia de valor. Chegamos na era das “fábricas inteligentes”.

“É uma grande revolução que a humanidade vai passar, que já está passando na realidade. Estamos vivendo essa revolução”, comenta o diretor técnico do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), Ricardo Terra.

Evento ocorreu nos dias 5 e 6 de dezembro

Na visão do docente de Engenharia de Controle e Automação do Instituto Mauá de Tecnologia, Fernando Madani, trata-se de um processo benéfico. “A maior eficiência dos processos produtivos, bem como a disponibilização de dados, a visão global de todas as etapas do processo e a rastreabilidade de processos e produtos são benefícios inegáveis da aplicação dos conceitos da indústria 4.0”, comenta o professor.

Entre algumas tecnologias empregadas na quarta revolução industrial, destacam-se o big data (coleta, processamento e análise de grande quantidade de dados em tempo real), computação de alta performance, comunicação de máquina para máquina (M2M), digitalização, inteligência artificial e internet das coisas (Internet of Things – IoT).

A inserção dessas tecnologias no chão de fábrica permitirá um aumento exponencial na automação industrial e permitirá que os robôs tenham autonomia para tomar algumas decisões. Isso sugere, para alguns, que as máquinas tomariam o lugar dos trabalhadores. Mas não é bem assim.

O que os especialistas comentam é que haverá, sim, mudanças no mercado de trabalho. Mas mudanças que extinguirão cargos e exigirão a criação de novos postos na mesma proporção. É necessário, portanto, preparar os trabalhadores para esta nova função e não se desesperar com a nova revolução.

“Já passamos por outras revoluções no mundo. Todos os prognósticos catastróficos dos pessimistas de plantão sempre foram afirmados junto a sociedade, contudo, o ser humano se adaptou, se reconfigurou”, lembra Terra.

Na mesma linha, Madani comenta: “Com o aumento da automação, postos de trabalho podem ser modificados, normalmente necessitando diferentes níveis de qualificação. Entretanto, isto não pode ser considerado uma ameaça aos postos de trabalho, sendo que, atualmente, se processos não forem automatizados, indústrias perdem a competitividade e, aí sim, todos seus postos de trabalho estão em risco, sendo esta uma ameaça bem maior”.

Preparação de mão de obra

O Senai inaugurou em agosto, em São Caetano do Sul, a primeira unidade voltada a indústria 4.0. O local possui planta que reproduz o que há de mais moderno nesta temática e em pouco tempo já virou referência no assunto.

A planta recebeu o 1° Congresso Brasileiro de Indústria 4.0, uma iniciativa da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI).

Unidade do Senai de São Caetano do Sul fez parte das atividades do congresso; a planta reproduz conceitos da indústria 4.0

O evento foi dividido em dois dias, 5 e 6 de dezembro – a agenda do primeiro dia ocorreu na sede da Fiesp, na Avenida Paulista, em São Paulo, e as atividades do segundo dia ocorreram no ABC –, contou com mais de 1,8 mil inscritos e recebeu palestrantes de países como Reino Unido, Israel, Estados Unidos, Alemanha, Japão, Coréia do Sul, por exemplo.

Na visita técnica à planta de São Caetano do Sul, o diretor da unidade, Osvaldo Padovan, ressaltou que o local foi concebido justamente para preparar os jovens da região para as empresas que trabalhem com o conceito da indústria 4.0. “O objetivo é preparar os jovens e capacitar o capital humano que nós temos hoje para trabalhar nas ‘novas’ indústrias”, afirma.

Migração para a 4.0

No Brasil, algumas multinacionais já estão aplicando alguns conceitos da quarta revolução industrial. Mas, neste cenário, como fica a situação das micro, pequenas e médias empresas, que representam a maioria das corporações do País?

Para o professor do Instituto Mauá, a maioria das empresas brasileira ainda não estão prontas para implantar os conceitos da 4.0. Contudo, prossegue o especialista, “com poucas ações e até mesmo com baixo investimento” é possível alcançar os benefícios da revolução.

Na avaliação de Terra, a situação das empresas brasileira é muito similar com a companhias dos outros países. “Essa mesma dificuldade que a gente tem no País, com as médias, pequenas e, principalmente, as microempresas, certamente é um desafio global. No contato com os outros palestrantes, dos outros países, observo que é um mesmo desafio”, conta.

Para os empresários mais atentos e que já pensam em começar a se adaptar aos novos conceitos industriais, Madani recomenta que os gestores, na maioria dos casos, devem apostar no retrofit, isto é, na modernização das plantas já existentes. “O (empresário) deve considerar a adequação dos equipamentos instalados, a rede e a conectividade disponíveis no chão de fábrica, além dos processos de gestão. A aplicação dos conceitos vai envolver modificações físicas e comportamentais”, explica.

Dados divulgados no último dia 12 pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) indicam que, até 2027, 21,8% das empresas brasileiras se enquadrarão nos conceitos de indústria 4.0 – atualmente, este número é de apenas 1,6%. A sondagem, que faz parte do Projeto Indústria 2027, foi feita pelo Instituto Euvaldo Lodi (IEL), e avaliou 759 grandes e médias indústrias brasileiras e multinacionais.

O superintendente nacional do IEL, Paulo Mól, destaca a alta velocidade das mudanças que devem ocorrer na próxima década. “Passaremos os próximos dez anos em um processo de transformação industrial muito intenso, com as empresas, de fato, buscando trazer essa tecnologia disruptiva e implementando essas práticas dentro do seu modo de produção”, avalia.

Portanto, de fato, a revolução já começou. Aqueles que forem mais ágeis e assertivos no processo transição para a indústria 4.0 certamente colherão os frutos no futuro. “Não é uma escolha ficar fora ou dentro desse processo. Isso não é uma decisão nossa, é uma coisa que o mundo está caminhando”, conclui o diretor técnico do Senai.

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