A região do ABC, desde a sua formação, foi reconhecida como o berço industrial brasileiro, especialmente no setor automotivo. As gigantes automobilísticas sempre foram empregadoras importantes e fundamentais pilares para o desenvolvimento da região. A Volkswagen, por exemplo, chegou a empregar 30 mil pessoas em sua planta de São Bernardo do Campo, décadas atrás. O setor químico é outro de suma importância para as sete cidades, especialmente para Mauá e Santo André, cidades que compõem o Polo Petroquímico do ABC.

Os dois segmentos, mesmo décadas depois do ápice de suas atuações na região, continuam sendo de extrema relevância para o desenvolvimento regional, como empregadores, na arrecadação de tributos e como impulsionadores de toda uma cadeia composta por fornecedores e prestadores de serviços.

Há, contudo, um antigo e crescente pessimismo em relação ao segmento industrial. Não existe um único fator que possa ser apontado como responsável, mas é claro o enfraquecimento do setor industrial no ABC. Existe há muitos anos, por exemplo, um movimento das grandes industrias de migração para cidades do interior de São Paulo e de outros estados brasileiros. Entre os argumentos conhecidos para esse movimento, estão o alto valor da manutenção das plantas daqui e isenções fiscais oferecidas por outros municípios. No início deste ano, duas tradicionais companhias sediadas no ABC causaram arrepios ao colocar de volta no noticiário a possibilidade de deixarem as cidades de São Caetano do Sul, no caso da General Motors, e São Bernardo do Campo, no caso da Ford.

As questões estão sendo tratadas como muito cautela pelos entes públicos e geram grande mobilização por parte de todo a população, especialmente nos segmentos sindicais envolvidos diretamente nessas operações.

Essas notícias, mesmo sendo confrontadas com novos investimentos de outras montadoras, fazem ecoar, novamente, a opinião de diversos agentes que defendem que a região não pode mais ser dependente e se sentir intimidada pelo segmento industrial.

A discussão antiga, a cada ano que passa, parece ganhar mais força: a região deve concentrar esforços na atração de empresas de tecnologia, para que se instalem na região e por aqui desenvolvam produtos de alto valor agregado. E este pote de empresas de tecnologia não se restringe a tradicionais fabricantes de equipamentos eletrônicos, por exemplo.

Economia do ABC ainda é baseada no segmento industrial, especialmente o automotivo | Foto: Arquivo

No momento, o assunto em maior evidência, no mundo, é a consolidação das startups (empresas que apresentam soluções inovadoras, geralmente acompanhadas de ferramentas tecnológicas, e que possam ser replicáveis em alta escala sem que isso altere seu modelo de negócio). A “onda” da criação de startups, que ganhou força no Vale do Silício, nos Estados Unidos, parece realmente ter chegado ao Brasil.

Até 2018, o País havia atingido a marca de cindo “unicórnios” (termo utilizado para classificar as startups que superem US$ 1 bilhão em seu valor de mercado: a fintech Nubank; a ferramenta de mobilidade urbana concorrente da Uber, 99; o Ifood, aplicativo de delivery de alimentação; e as processadoras financeiras Stone e PagSeguro.

O time ganhou um novo membro ainda nas primeiras semanas deste ano. Entrou para este seleto grupo a Gympass, startup para assinatura mensal de academias ou para uso diário, sem compromisso, dos locais. A plataforma recebeu nova rodada de investimentos liderada pela companhia japonesa Softbank que podem chegam a US$ 500 milhões. A ferramenta surgiu em Minas Gerais, está presente em mais de dez países e dispõe de cerca de 25 mil academias cadastradas em seu banco de dados.

ABC evolui no assunto

O surgimento e o amadurecimento do ecossistema de startups do ABC são retratados nas páginas da Negócios em Movimentos há várias edições. Prova disso, foi a matéria de capa de nossa edição 93, que realizou o primeiro mapeamento das startups presentes no ABC que se tem notícia.

Essas e outras iniciativas, de diversos, atores resultou no surgimento e na organização da comunidade ABC Valley, grupo que diferentes agentes que compõem o ecossistema de startups e inovação tecnológica via empreendedorismo do ABC.

O movimento passou a chamar a atenção, inclusive, de docentes e especialistas no assunto e virou tema de pesquisas acadêmicas. A professora da Centro Universitário FEI, Patrícia Matsuda, 35, abordou o assunto em sala de aula, junto com seus alunos de Administração.

Foi dado aos discentes, a missão de mapear todo o ecossistema de inovação e startups do ABC. Os alunos, usando como base a referida matéria da Negócios em Movimento analisaram o trabalho de algumas startups e buscaram mais informações sobre incubadoras, investidoras, e demais iniciativas que temos na região.

Os alunos constataram que 90% dos investimentos feitos na região ainda são destinados ao setor industrial e ressaltaram em seus trabalhos a necessidade de se aumentar o capital investido em startups para que os resultados alcançados por elas sejam mais satisfatórios.

Startups da região amadurecem

Uma prática muito disseminada no universo das startups é o investimento-anjo. A startup Vhita, sediada em Santo André, contou com essa modalidade de aporte no início de suas atividades, em 2015. A iniciativa andreense atua no setor de suplementos, vitaminas e alimentos funcionais e foca aposta na busca por longevidade dos consumidores.

De acordo com a consultoria de human data sciense IQVIA, a startup faturou, entre 2017 e 2018, R$ 4 bilhões. O objetivo agora é triplicar o faturamento e atingir a marca de R$ 4,5 bilhões apenas em 2019.

Bianco apostou em deixar o negócio 100% digital | Foto: Divulgação

No início, o negócio seguia o formato de inclusão de produtos em pontos de venda e apostava nas indicações de nutricionistas parceiros. Contudo, a startup resolveu pivotar e atualmente tem 100% do seu modelo de negócio adotado em plataforma digital. Dessa forma, o negócio, liderado pelo CEO Luís Bianco, se diferencia dos concorrentes e deixa de disputar espaço em lojas e farmácias.

“Temos um foco muito grande em empoderamento do consumidor. Fazer com que ele entenda suas necessidades e, principalmente, como escolher bons produtos para supri-las. Com conhecimento ele saberá identificar quem trabalha com a melhor matéria-prima, atende as práticas de mercado, tem certificações e resultados comprovados com preço competitivo e, naturalmente, chegará até a Vhita”, explica Bianco.

A estratégia da startup é usar a tecnologia para cobrir as duas frentes. A disseminação de conteúdo qualificado como prestação de serviço e a democratização do acesso aos produtos. A venda é direta para o consumidor final pela internet ou telefone. Sem a intermediação de farmácias e distribuidores, o preço se torna mais competitivo.

“Este modelo traz transparência em um mercado cheio de promessas e notícias falsas, além de permitir uma personalização de ponta a ponta, do atendimento aos produtos mais indicados para cada pessoa. Além de maior escala, com alcance de Norte a Sul do País”, completa o executivo.

Outra startup que passa por evolução e tem perspectivas de crescimento é a Futuritos, de São Caetano do Sul, negócio voltado aos pais que pretendem garantir uma reserva financeira e ao mesmo tempo registrar o crescimento dos filhos.

A iniciativa passou por aceleração da InovaBra (entidade mantida pelo Bradesco para fomentar a inovação), em processo que se encerrou em julho de 2018. Durante o período que contou com o monitoramento do órgão, o negócio ganhou maturidade e deu largos passos na corrida em busca do sucesso.

Joubert Mesquita, criador da Futuritos, comenta os avanços: “Foi (um período) ótimo. Conseguimos concluir a primeira versão do produto e colocá-lo no ar. Ainda falta muita coisa, mas já entregamos nossa proposta de valor. Já estamos ajudando milhares de famílias a garantir um futuro mais próspero para suas crianças”, afirma.

A Futuritos, de Joubert, passou por aceleração do InovaBra, do Bradesco | Foto: Divulgação

No planejamento do empresário, haveria uma campanha de marketing para popularizar a plataforma, “mas por questões internas do Bradesco isso ainda não ocorreu”, conta. “Isso afetou bastante nossos planos”, lamenta o empresário. Atualmente, a startup trabalha na busca de novos parceiros e introdução de novas funcionalidades.

Iniciativas do ABC se destacam

A ascensão do ABC no ecossistema de startups pode ser medido não apenas pela evolução mercadológica dos negócios criados aqui, mas também pela constante seleção de startups da região em programas de mentorias e aceleração.

Em dezembro do ano passado noticiamos, por exemplo, que duas startups do ABC foram umas das 33 selecionadas, dentro de um universo de 265 inscritos de todo o País, para o programa de aceleração do BrazilLAB, hub de inovação voltado à aceleração de soluções que auxiliem governos na gestão pública.

São elas a UniverSaúde (desenvolvera de soluções que visam melhorar a qualidade dos serviços de saúde e apoiadora educacional para gestores e profissionais da área) e a Botnicks (startup que utiliza inteligência artificial para atendimentos automatizados pelo Messenger do Facebook), ambas de Santo André.

Nos últimos dias de fevereiro, a organização do programa divulgou as 20 startups que foram selecionadas para a segunda fase, e as duas iniciativas do ABC estão na lista. Elas avançaram após passarem por três módulos presenciais e mentorias online (que abordaram temas como experiência do usuário, aspectos jurídicos de serviços para governos e geração de impacto no setor público, entre outros) e agora terão a oportunidade apresentar pitch, em 19 e 20 de março, para a banca do BrazilLAB.

A Botnicks, em especial, tem mais motivos para comemorar. Uma de suas soluções foi indicada por especialistas, entre mais de 100 concorrentes, como finalista do prêmio Bots Brasil Awards 18 – 19 na categoria “Ação Social”, com o projeto “Mosquito Zero”. O projeto reúne uma série de ações de combate ao mosquito aedes aegypti na Bahia e o chat inteligente é desenvolvido pela startup andreense. A votação segue até 17 de março e o resultado deve ser divulgado em abril.

Um dos criadores da Botnicks, Daniel Faria, se mostra satisfeito com a indicação e destaca o amadurecimento da solução nos últimos meses. “Nós tínhamos um foco mais genérico e, neste último ano, percebemos que existem segmentos que enxergam muito mais valor no que fazemos. Hoje, atuamos focados em Recursos Humanos (RH) e cidades inteligentes, onde os bots são mais aceitos, por uma série de fatores”, destaca.

Faria ressalta que quase todo o faturamento obtido em 2018 foi oriundo do setor de RH e cita como exemplo o sucesso da participação do bot no processo de seleção para trainees da Rede Globo. “Só neste projeto, em parceria com a 99jobs, mais de 35 mil candidatos foram triados em 1 mês”, explica.

A Engage, que também já teve seu crescimento registrado em nossas páginas, é outra startup de Santo André que chamou atenção em avaliações de alcance nacional. Ela foi uma das 20 selecionadas para participar da edição Santiago (Chile) do programa StartuOut Brasil, iniciativa do Ministério da Economia que leva startups brasileiras com alto potencial de internacionalização a ecossistemas de inovação de todo mundo.

Representantes da empresa terão agenda de atividades entre 24 e 29 de março, na qual terão a possibilidade de prospectar clientes, parceiros e investidores em workshops e diversas visitas às instituições de apoio ao empreendedorismo e empresas locais. Estima-se que somente em Santiago existam entre 500 e 700 startups. Também estão programadas atividades no Brasil, como capacitações e mentorias.

Poder Público atrasado

No ABC, a única Prefeitura que já possui um trabalho estruturado para auxiliar as startups é a de São Bernardo do Campo que, em 2017, colocou em operação Centro de Empreendedorismo e Inovação Tecnológica (Ceitec).

Ceitec é um dos poucos locais do ABC, mantidos pelo Poder Público, de apoio às startups | Foto: Gabriel Inamine/PMSBC

O local lança chamamentos públicos anuais para captar ideias inovadoras que se encaixem nas diretrizes do espaço. Ao analisar viabilidade mercadológica, grau de inovação, entre outros itens, são selecionados 20 projetos para que os empreendedores recebam mentorias e capacitações. A única exigência é que o negócio seja colocado em prática dentro do município.

A Secretaria de Desenvolvimento de Santo André apoia eventos voltados ao ecossistema de startup da região. Chegou a ceder no ano passado, inclusive, as próprias dependências para abrigar o primeiro Startup Weekend realizado no ABC e colocou no ar a Escola Aberta de Inovação e Empreendedorismo, para auxiliar na formação dos empreendedores locais, mas ainda falta um local de apoio permanente na cidade. Este local deverá ser o Parque Tecnológico, projeto que parece ainda distante de sua conclusão.

Mesmo com o apoio aquém do necessário, os empreendedores inquietos da região seguem se movimentando. O destaque das inovações geradas no ABC se deve ao expressivo crescimento de startups da região.

Na falta de um censo oficial elaborado por entes públicos da região, a única forma possível de se dimensionar a quantidade de startups criadas nas sete cidades é o mapeamento feito pela própria equipe de reportagem desta publicação. Em fevereiro do ano passado, a reportagem havia localizado 34 startups no ABC. Um ano depois, o número triplicou e já ultrapassa uma centena de negócios, nos seus mais diferentes estágios (confira a lista de startups ao lado).

É certo que a grande maioria das iniciativas serão descontinuadas em pouco tempo, o que é característico do modelo de negócio implantado em startups: criar, executar, errar, acertar, alcançar o sucesso ou fracasso em um curtíssimo espaço de tempo, na comparação com a formatação de negócios mais tradicionais. Mas é certo também, neste caso, que da quantidade sairá a qualidade e que dentre a maioria de insucessos surgirão diversas startups premiadas e reconhecidas nacional, e quem sabe, internacionalmente.

 

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