Economia segue trajeto de recuperação

Foto: Arquivo

A percepção é geral: em termos econômicos, terminamos 2017 melhor do que 2016. O humor dos empresários e da população melhorou; as tensões políticas, embora ainda sejam latentes, foram atenuadas e a poeira pós-impeachment parece ter baixado. Esses e outros fatores resultaram em números positivos para a economia nacional – mas ainda estamos muito distantes de voltar ao nível anterior à recessão.

O mais contundente deles refere-se ao Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro de 2017, o índice composto pela soma de todos os bens e serviços gerados pelo País no ano. É o que mede, portando, o “tamanho” da economia brasileira.

Neste indicador, o Brasil registrava sucessivas altas até a chegada da crise econômica. Mesmo já em recessão, fechamos 2014 estáveis (alta de 0,1% comparado com o ano anterior) para, em seguida, registrarmos duas quedas consecutivas no biênio 2015-2016 (-3,8% e -3,6%, respectivamente), naquilo que se configurou como a maior recessão econômica da história brasileira – o País só havia registrado duas quedas consecutivas no PIB em 1930-1931, mas na época com decréscimos menores.

Após a queda brutal, voltamos, ao menos, a não cair. Os números oficiais do índice são divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mas isso só ocorrerá em março. Entretanto, estimativas do mercado dão conta que registraremos, em 2017, um leve crescimento neste indicador, de 1,1%, número comemorado por especialistas.

“Já é um alento”, na opinião do presidente da Associação Comercial e Industrial de Santo André (ACISA), Everson Dotto. “Não dá para soltar rojão, mas foi bom, reverteu a tendência de queda”, completa. Para o coordenador e professor do curso de Administração do Instituto Mauá de Tecnologia, Ricardo Balistiero, “o crescimento indica a saída da recessão”.

Um pouco menos otimista está o economista e chefe do Departamento de Ciências da Administração e Tecnologia da Universidade de Araraquara (Uniara), Eduardo Rois Morales Alves: “ainda é uma retomada muito lenta, pequena, incipiente”, aponta, ao recordar que a base de comparação é extremamente ruim.

Agronegócio foi o setor que apresentou os melhores resultados em 2017

Agronegócio é destaque

A agricultura e sua excelente safra em 2017 foi o setor mais responsável por essa tímida elevação no PIB. O ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Blairo Maggi, divulgou no último dia 16 os resultados do setor no ano que passou. As exportações do agronegócio registraram US$ 96,01 bilhões, crescimento de 13% em relação a 2016. No período, o setor foi responsável por 44,1% do total das vendas externas do Brasil.

O assessor econômico da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), Guilherme Dietze, esclarece que o setor ainda exerce muita influência sobre a economia brasileira. “A nossa pauta exportadora ainda é agrícola, de commodities, então isso tem uma relação elevada (com o desempenho do PIB)”, explica.

Crescimento maior em 2018

Para este ano, o mercado prevê uma elevação mais robusta no PIB nacional. Segundo informações divulgadas no último dia 15 pelo Boletim Focus – relatório divulgado pelo Banco Central (BC) responsável por medir a expectativa do mercado em relação à economia –, a projeção é que chegaremos ao fim de 2018 com crescimento de 2,7% na economia. Mas, desta vez, o agronegócio não exercerá tanto protagonismo. Esta elevação no índice só será possível com o auxílio de outros setores fundamentais para o País.

Balistiero: “O mercado interno deverá ser, pelo lado da demanda, o item mais importante do crescimento econômico”

“O mercado interno deverá ser, pelo lado da demanda, o item mais importante do crescimento econômico. A safra agrícola também será muito boa, mas abaixo daquilo que representou em 2017”, aposta o docente do Instituto Mauá.

Por sua vez, o especialista da FecomércioSP explica que, embora o agronegócio seja essencial para a macroeconomia, o setor se caracteriza por sua remuneração baixa aos trabalhadores. “Ele (o agronegócio) não emprega tanto quanto outras atividades. A gente também precisa do dinamismo do setor de Serviços, Comércio e Indústria”, comenta.

Inflação abaixo da meta

Outro indicador de suma importância para a população, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação oficial do País, fechou 2017 em 2,95%, o menor resultado desde 1998, quando o indicador ficou em 1,68%. Há poucos anos, em 2015, essa taxa fechou o ano acima dos dois dígitos. O IPCA, que foi divulgado pelo IBGE no último dia 10, é composto por um grupo de nove setores.

Conforme explicou o gerente do Sistema Nacional de Índices de Preços ao Consumidor do IBGE, Fernando Gonçalves, o setor agropecuário também foi fundamental para a inflação. O especialista ressaltou que a safra foi cerca de 30% maior do que a registrada em 2016, o que resultou em deflação (queda de preços) no setor Alimentação e Bebidas, responsável por cerca de 25% das despesas das famílias.

Porém, outros importantes itens apresentaram sucessivos e expressivos aumentos nos preços. O gás de botijão (+16%), taxa de água e esgoto (+10,52%) e energia elétrica (+10,35%) elevaram o custo do grupo Habitação em 6,25%. Também merece destaque o preço da gasolina, que sofreu 115 reajustes no preço entre julho e dezembro do ano passado, o que converteu em aumento acumulado de 25,49% no preço do combustível e acarretou em alta de 4,1% no segmento Transporte.

Mesmo assim, o excelente desemprenho agrário do País fez com que a inflação ficasse abaixo de 3%, que era o piso da meta para o índice (o centro da meta era de 4,5%). Contribuíram, também, para o baixo resultado a falta da pressão de demanda, fruto da recessão vivida nos últimos anos.

Para 2018, as perspectivas indicam que o resultado ficará próximo do centro da meta. Na avaliação de Dietze, ainda existe “muito espaço para crescer sem pressionar preço”, opinião compartilhada por Baliestiero: “a capacidade ociosa da indústria permite que o crescimento econômico não gere tensões mais preocupantes na alta dos preços”.

A menor taxa de juros em 30 anos

Se voltarmos no tempo, em dezembro de 2016, constataríamos que a taxa básica de juros da economia, a Selic, era de 13,65% ao ano (a.a.). Porém, daí em diante, o Comitê de Política Monetária (Copom), do BC, adotou uma nova estratégia e promoveu uma arrojada flexibilização monetária.

Essa nova postura permitiu que, no início de dezembro último, o País registrasse a menor taxa de juros desde 1986: 7% a.a.. Portanto, em menos de um ano, o índice praticamente caiu pela metade. A intenção dos economistas com a medida é estimular o crédito aos consumidores para impulsionar o consumo de bens duráveis e de maior valor, como automóveis, eletrodomésticos e móveis, e, consequentemente, incentivar a produção.

Os especialistas consultados pelo Negócios em Movimento avaliam que ainda há margem para redução na taxa Selic. “Nós estamos chegando no limite, mas existe um espaço mínimo para jogar um pouco mais para baixo. O que estamos discutindo é coisa de 0,25%, 0,5%”, comenta o economista da FecomércioSP. Já o docente do Instituto Mauá lembra que se ocorrerem tensões fortes (eleitorais ou vindas do exterior), o BC tem margem para subir a Selic na virada do ano. “Mas nada que seja muito superior a 8% ao ano”, pondera.

No fim do ano passado, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) divulgou nota em que classificou como “fundamental” o barateamento do crédito e a redução dos spreads bancários para que o processo de retomada da economia ganhe força. Entende-se por spreads bancários a diferença no valor que as instituições financeiras pagam para angariar recursos e o que eles cobram ao conceder empréstimos aos seus clientes – isto é o que interessa, na prática, aos consumidores.

Em 8 de janeiro, a Fundação Procon-SP divulgou pesquisa que constata que a taxa de juros do empréstimo pessoal apresentou uma leve queda nas instituições consultadas (Banco do Brasil, Bradesco, Caixa Econômica Federal, Itaú, Safra e Santander) na comparação entre dezembro e janeiro. Mesmo assim, os especialistas consideram que as taxas aplicadas pelos bancos continuam altas.

Desemprego continua elevado

Os indicadores econômicos, como vemos, parecem, enfim, dar esperança aos brasileiros – especialmente à classe empresarial. Mas, quando pensamos na maior parte da população, a classe trabalhadora, o índice que mais interessa é o do desemprego. Este, infelizmente, continua elevadíssimo. “2018 ainda fechará com a taxa de desemprego em níveis elevados se comparados com o início da década”, estima Balistiero.

Após atingir o maior nível da série histórica (iniciada em 2012) em abril de 2017, com 13,7% da população desempregada (ou 14,2 milhões de pessoas), o indicador estava em 12% em novembro (12,6 milhões de pessoas), de acordo com a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) do IBGE. Para comparação, em 2013, no ano em que foi registrado o resultado mais baixo, o índice era de 4,3%.

Para a região do ABC, especificamente, o número de desempregados está intimamente ligado ao desempenho da indústria, principalmente da automobilística. Durante 2017, algumas montadoras da região anunciaram investimentos para este ano nas plantas do ABC, como é o caso da Volkswagen, por exemplo, que anunciou a fabricação de dois novos modelos na fábrica localizada na Via Anchieta.

Minciotti: “Nós estamos buscando dar condições para que o empreendedor possa prosperar”

A Fiesp divulgou no último dia 17 que a indústria paulista teve 35 mil postos de trabalho fechados no ano passado. Embora o resultado ainda seja negativo, há uma melhora no resultado – foi o melhor desempenho desde 2011. Para entender esta melhora é necessário relembrar os resultados anteriores: entre 2014 e 2016, foram fechadas, em média, 173 mil vagas por ano.

Das fontes consultadas pela reportagem, o secretário de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Turismo de São Bernardo do Campo, Hiroyuki Minami, foi o que demonstrou mais otimismo em relação ao nível de desemprego. “Creio que vá melhorar muito. A construção civil vai contratar com a retomada de obras”.

Dotto, presidente da ACISA, pensa de forma contrária e projeta uma retomada lenta na geração de emprego devido aos altos índices de ociosidade das indústrias. Na opinião dele, o que pode acelerar este processo é o Indicador de Confiança do Consumidor (ICC). “A gente tem que ‘brigar’ muito por este índice, porque é ele que faz o negócio girar. As pessoas empregadas são aquelas que consomem, são aqueles que ‘criam’ emprego para os outros”, justifica.

O ICC fechou 2017 com 40,9 pontos, conforme divulgou o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) no último dia 15. A escala do indicador varia de zero a 100, sendo que abaixo de 50 pontos significa um predomínio da percepção negativa tanto com relação à economia, como das finanças pessoais.

O secretário de Desenvolvimento Econômico, Trabalho, Turismo, Tecnologia e Inovação de São Caetano do Sul, Silvio Minciotti, chama a atenção para outro fator: a quarta revolução industrial, também chamada de Indústria 4.0, assunto que foi tema da última reportagem de capa da Negócios em Movimento.

“Pouca coisa tem se falado à cerca dos efeitos da quarta revolução industrial sobre a oferta de empregos”, alerta, para em seguida explicar: “uma das consequências dela é o fechamento de postos de trabalho com a abertura de alguns novos, mas em número menor. Porém, estes novos postos atingem um perfil de público que não é aquele que está perdendo emprego”.

Na opinião dele, boa parte dessa parcela de pessoas que estão fora do mercado de trabalho buscarão alternativas no empreendedorismo. “É aí que eu entendo que a coisa vai desaguar. O indivíduo precisará buscar uma solução para a vida dele e o empreendedorismo é aquele que está mais próximo da realidade dele. Nós estamos buscando dar condições para que o empreendedor possa prosperar”, aposta.

E as eleições?

Como sabemos, 2018 é ano eleitoral e algumas das fontes consultadas demonstraram grande preocupação com os resultados das urnas. “Infelizmente os candidatos têm frágeis programas de trabalho”, opina Minciotti.

Na opinião dele, as reformas, com destaque para a previdenciária, devem ser defendidas e colocadas em pauta o mais breve possível, visão parecida com a de Balistiero. “Uma eventual candidatura vitoriosa não comprometida com a agenda de reformas pode retardar esse lento processo de recuperação da economia, levando bastante pessimismo aos mercados”, diz o educador do Instituto Mauá.

Dietze: “A economia vai andando como está. Sem grandes avanços, mas de forma paulatina, bem gradual, mas se recuperando”

O atual governo, dirigido pelo presidente Michel Temer, tentará emplacar a reforma da Previdência em fevereiro no Congresso nacional, mas a tendência é de que a proposta sofra muita resistência dos opositores com base em críticas de diversos setores da sociedade civil.

“Temer tem fragilidade política que dificulta a reforma e ela também é bastante impopular, além de não atacar o cerne da questão, que são os altos benefícios do funcionalismo público federal, por exemplo. Há o flagrante da questão do teto salarial, que o próprio Poder Judiciário desrespeita descaradamente”, ataca Alves, da Uniara.

Mas, enquanto os rumos da reforma seguem incertos e o xadrez político indefinido, a tendência é de que, em curto prazo, a economia brasileira não apresente bruscas mudanças no seu rumo. “A economia vai andando como está. Sem grandes avanços, mas de forma paulatina, bem gradual, mas se recuperando”, conclui Dietze.

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