Na UTI, economia brasileira depende de ações indutoras do Estado para sobreviver

Enquanto milhares de empresas estão em dificuldades por conta do Covid-19, o sistema financeiro nega crédito a empresários, que aguardam medidas estatais para que as linhas de financiamento emergenciais lhe acudam

Foto: Vitor Lima

Pouco mais de dez anos após a última grande crise do capitalismo mundial, a economia global se vê, mais uma vez, fortemente ameaçada. Desta vez, ao que tudo indica, com consequências mais graves do que a crise de 2008, em um processo que só poderá ser comparado à grande depressão de 1929.  

As causas, contudo, são totalmente distintas. Os livros registrarão que em 2020 não restou outra alternativa para as autoridades mundiais se não o sacrifício econômico para preservar a vida da população mundial.  

Passar por este momento é ainda mais traumático para um país como o nosso, que vinha se recuperado lentamente das perdas dos últimos anos.  

Todo o processo é inédito e exige grandes esforços de estudiosos e agentes do mercado para tentar saber o tamanho do buraco em que o mundo está entrando. Os cálculos possuem uma variante incontrolável aos economistas: o avanço do Covid-19, impeditivo para dimensionarem com alguma precisão a recessão global a enfrentar. 

As primeiras estimativas projetam que o Brasil registrará, em 2020, queda no Produto Interno Bruto (PIB) que pode variar de 3% a 12%. Com o País paralisado, tanto a oferta, quanto a demanda, foram a praticamente zero, o pior cenário possível para o sistema capitalista, em diversos setores.  

Desemprego poderá quebrar série histórica 

O desemprego, ao que tudo indica, atingirá níveis recordes no momento em que o mau momento do País registrado nos últimos anos for somado aos efeitos da crise gerado pelo novo coronavírus 

Dados da PNAD Contínua, elaborados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que analisam o trimestre que vai de dezembro/2019 a fevereiro/2020, ou seja, antes do Covid-19 se tornar uma realidade no Brasil, foram divulgados em 31 de março e já não eram animadores. De acordo com o levantamento, a taxa de desocupação subiu para 11,6% no País (ou 12,3 milhões de pessoas desempregadas), na comparação com o trimestre anterior.  

O diretor da Regional ABC do Sindicato das Empresas de Serviços Contábeis, Assessoramento, Perícias, Informações e Pesquisas do Estado de São Paulo (SESCON-SP), Edmilson de Ataíde, comenta que as demissões “irão se acentuar à medida em que o isolamento tiver que ser estendido. Por enquanto, a maioria das empresas tenta manter os empregos, até para evitar os gastos gerados pelo desligamento de profissionais formais das corporações. “Mas, fatalmente, as demissões virão assim que o caixa destas empresas acabarem. E o que é pior: virão sem que tais rescisões sejam quitadas”, afirma. 

Coordenador do Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura da Universidade de São Caetano do Sul (Conjuscs), o economista Jefferson José da Conceição lembra a alta dependência do ABC ao setor automotivo, pelas grandes indústrias e por toda a cadeia produtiva de pequenas e médias empresas ligadas ao segmento produtivo.  

Conceição cobra ações do governo federal para garantir a sobrevivência do setor produtivo | Foto: Divulgação

O cenário que devemos ter no período pós-pandemia, projeta o economista, é de consumidores restringindo a compra de bens duráveis, o que trará prejuízos ao setor, mesmo após a retomada da produção. diretor de Programas e Projetos do Consórcio Intermunicipal do Grande ABC, Giovanni Rocco, concorda com a avaliação de Conceição: “quando voltar a produção as pessoas não vão ter dinheiro para compra carro”. Portanto, a pandemia representa mais um duro golpe ao setor automobilístico da região, que já vinha bastante debilitado.  

ABC deve perder mais de 5% do PIB 

estimativa de Conceição é de que o PIB do ABC encolha entre 5 e 7% no ano, um número ainda mais assustador ao ser somado às quedas que as sete cidades registraram no índice entre 2015 e 2019, algo em torno de 20%, de acordo com ele.  

Diante disso, o Consórcio ABC tomou a iniciativa de reunir por videoconferência secretários municipais de Desenvolvimento Econômico, sindicatos e entidades de classe da região. Foram dezenas de participantes. “A nossa iniciativa foi no sentido de unir forçar para fazer um movimento político, escutar eles que estão na ponta, empresários e trabalhadores de diversos setores do setor produtivo para construir uma coalização e enviar as demandas da região para o governo estadual e federal”, explica Rocco.  

As medidas necessárias para a manutenção dos postos de emprego na região foram um dos assuntos debatidos. Especialmente para as Pequenas e Médias Empresas (PME’s), momentos de praticamente nenhum faturamento como o que vivemos tornam a missão de manter o quadro de funcionários praticamente impossível. “No geral, estas empresas não têm reserva de caixa superior a 30 dias e certamente estamos falando de um período muito maior que isso”, afirma Ataíde.  

Fazer com que o crédito chegue às empresas deve ser prioridade

Para sobreviver, a única alternativa que resta aos empresários é recorrer ao crédito, tema que foi o mais lembrado e o que gerou o maior número de lamentações na conferência. Embora o governo tenha tomado medidas para tentar facilitar a tomada de empréstimo junto aos bancos, a realidade é que o dinheiro não tem chegado à ponta da cadeia.  

O governo criou uma linha de crédito emergencial para PME’s com a intenção de beneficiar até 1,4 milhão de empresas e mais de 12 milhões de trabalhadores. A linha é destinada para empresas com faturamento anual entre R$ 360 mil a R$ 10 milhões. O governo estima liberar R$ 40 bilhões, medida que pode ser utilizada pelas empresas para financiar até dois meses da folha de pagamento, limitado a dois salários mínimos por funcionário – possíveis excedentes devem ser bancados pela empresa.  

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, explica que o “dinheiro vai direto para funcionário; a empresa só fica com a dívida”, que tem taxa de juros de 3,75% (equivalente à taxa Selic atual), seis meses de carência e 36 meses de prazo para o pagamento. 

Pesquisa revela que bancos negam ajuda aos empresários 

Entretanto, pesquisa realizada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) com 6.080 empreendedores de todo o País, entre 3 e 7 de abril, revela que seis em cada dez donos de pequenos negócios que buscaram crédito no sistema financeiro desde o início da crise provocada pelo coronavírus tiveram o pedido negado.  

Por conta da pequena reserva financeira, Ataíde, do SESCON-SP, teme pelas PME’s | Foto: Divulgação

“Eles (os bancos) não estão atendendo, dando perspectiva, renegociando, alongando dívidas. Pelo contrário, eles estão aumentando as exigências”, sintetiza Rocco.  

De acordo com Conceição, as garantias exigidas pelos bancos são muito elevadas para o momento. “Não estamos vivendo num quadro de normalidade. Isso aqui é um quadro de interrupção das relações mercantis e dos negócios. A empresa não tem faturamento, a economia parou”, aponta. Para o economista, os bancos devem afrouxar as regras para as linhas de crédito que sejam destinadas ao pagamento da folha salarial dos empregados. “Evidentemente, os devedores têm que pagar suas dívidas passadas, quem pegar empréstimo agora vai ter que pagar, mas a roda tem que girar minimamente. Não é um momento, para essa linha de empréstimo, de considerar o rating da empresa”, afirma. 

Governo deve intervir no sistema financeiro  

Frente ao cenário, as fontes consultadas pela reportagem não enxergam outra solução que não a intervenção mais incisiva do governo federal no sistema financeiro para garantir que o dinheiro chegue às empresas.  

Porém, na visão do coordenador do Conjuscs, o governo não vê esta medida com bons olhos, já que a equipe econômica de Brasília é adepta do liberalismo econômico e do “estado mínimo”, ou seja, não acredita que o Estado deva interferir nas relações de agentes privados.  

O governo já adotou diversas medidas que contrariam esta linha do pensamento econômico, como o Auxílio Emergencial (que destina R$ 600 para autônomos e desempregados), mas a avaliação é de que tais ações foram adotadas devido a forte pressão dos congressistas e da sociedade civil.  

“Essa linha de pensamento liberal talvez coubesse em outros tempos. Hoje, no mundo inteiro (estou falando de Estados Unidos, Europa, Japão, de vários países), o Estado está intervindo incisivamente para manter as empresas em funcionamento. Tem que colocar muito dinheiro. Tem que, por exemplo, desconsiderar índices de endividamento e restrições ao gasto público”, esclarece Conceição.  

Caso não chegue ajuda ao setor produtivo, especialmente para as PME’s, o índice de desemprego inviabilizará a retomada econômica em curto prazo. “A depressão vai demorar muito mais e custará bastante socialmente”, completa o especialista. 

Empresas devem se readequar e se preparar para nova realidade 

Paralelamente à caçada ao crédito (para os que precisam), os empreendedores devem repensar estratégias para seus negócios durante o período de isolamento social, conforme aponta Ataíde. Muitas empresas, por exemplo, têm usado este ciclo para colocar em prática uma verdadeira revolução digital nos negócios – uma transformação à reveliaé verdade, mas importante.  

Ataíde sugere que uma maior aproximação com a assessoria contábil pode ajudar o empresário a encontrar saídas para este momento delicado. “Ela (assessoria) conhece, ou pelo menos deveria conhecer, os números do negócio. É hora de se aproximar do seu contador”, afirma. A partir daí, formular um novo plano de negócios, baseado nos parâmetros atuais, e nos futuros, para ter condições de seguir em frente quando tudo isto passar 

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