Obstáculos são superados por mulheres no mercado de trabalho

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Barreiras são inúmeras, em todas as áreas; no mercado de tecnologia e startups, áreas ainda extremamente masculinas, desafios são maiores | Foto: iStock

A luta das mulheres por direitos iguais e respeito é antiga. Direito ao voto, ao trabalho externo, ao acesso à educação e diversas outras pautas foram motivos de engajamento de milhares de mulheres ao longo dos anos.

Inegavelmente, o esforço dessas pessoas gerou avanços significativos em todas as áreas. Contudo, é igualmente inegável, que ainda há muito a evoluir. O machismo segue presente, se manifesta em todas as esferas e causa dor, sofrimento e injustiças.

Para alguns, os avanços do movimento em prol da igualdade de gêneros estão, neste momento, ameaçados.

O feminicídio, isto é, o assassinato de mulheres justamente pelo fato delas serem mulheres, tem estampado as manchetes dos periódicos brasileiros de maneira assustadora, dia após dia, com casos sempre chocantes.

Relatório global divulgado em janeiro pela ONG Internacional Humans Rights Wathc (tradução livre: Observatório dos Direitos Humanos) constata que a violência doméstica no Brasil passa por um momento epidêmico. Com dados apurados no começo de 2018, o relatório conclui que durante 2017 morreram pouco mais de 4,5 mil mulheres no Brasil por homicídios – e deste montante, 1,3 mil classificados como feminicídio.

O machismo no mercado

O grave problema social não fica de fora do mercado de trabalho, onde o machismo se manifesta fortemente e limita a atuação das mulheres. Divulgado em outubro do ano passado, a Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do Ministério do Trabalho, atestou que a remuneração média real das mulheres corresponde a 85% do salário dos homens.

Na ocasião, o coordenador-geral de Cadastros, Identificação Profissional e Estudos do Ministério do Trabalho, Felipe Pateo, comentou os dados, em nota. “Ainda há muitos desafios que precisam ser enfrentados, sobretudo no que se refere ao acesso das mulheres a postos de trabalho mais bem remunerados e garantia de recebimento de salários equivalentes pelo desempenho da mesma ocupação”, ressaltava o documento.

As mulheres e seus serviços ainda são cotidianamente desvalorizadas pelas corporações. Acrescente a este problema os inúmeros casos de assédios, dos mais variados tipos, inclusive os sexuais, e pronto: muitas mulheres ficam desmotivadas e insatisfeitas com o ambiente corporativo.

Projeto de Lei Municipal trata do assunto 

O assunto, inclusive, deve ser tema de debate nas próximas semanas na Câmara Municipal de São Caetano do Sul. O vereador Jander Lira (PP) apresentou em janeiro projeto que prevê que as empresas que almejam prestar serviços à municipalidade sejam obrigadas a apresentar documentação que comprove que homens e mulheres que desempenhem a mesma função/cargo tenham salários compatíveis.

Além disso, será necessária a comprovação, também, de ações afirmativas adotadas para garantir a igualdade de condições no ingresso e na ascensão profissional, o combate às práticas discriminatórias e de assédio moral e sexual na empresa. O projeto ainda não tem data para ser apreciado no Plenário.

Inserida em Tecnologia da Informação desde jovem, Annelise lamenta as dificuldades ainda vividas pelas mulheres | Foto: Divulgação

O quadro é geral e ocorre na grande maioria dos segmentos. Mas em determinadas áreas o preconceito se manifesta com mais frequência, especialmente em mercados majoritariamente masculinos, como a área de tecnologia, por exemplo.

Annelise Gripp, 41, começou a trabalhar com tecnologia aos 15 anos, com o desenvolvimento de software. Hoje em dia a profissional presta consultoria em transformação digital, gestão de projetos e também atua como coach, blogueira e palestrante.

Depois de passar a maior parte na carreira prestando serviços a outras empresas, a profissional decidiu, em 2015, apostar no próprio negócio. As dificuldades no empreendedorismo, reflete, são muitas, independente do gênero.

Contudo, ela avalia que o negócio, por ser comandado por uma mulher, tem dificuldades a mais. “A gente escuta muito deboche, como se a gente tivesse vendendo algo que não tem valor para ninguém. Por ser mulher, eu levo cantadas e recebo questionamentos. Perguntam se sou feliz ou se eu acho que estou fazendo a diferença”, comenta.

Em reuniões, a diferença de tratamento fica clara

De acordo com os relatos colhidos pela reportagem, a diferença de tratamento por conta do gênero se manifesta com muita frequência durante reuniões. CEO da startup Trustvox, Tatiana Pezoa, é uma das que atestam esta situação.

Ela criou a startup em 2014, em Campinas, para assegurar que os reviews (avaliações e comentários dados por clientes que adquiriram produtos via e-commerce) fossem verdadeiros. “Nossa principal missão sempre foi a de acabar com a indústria de falsos reviews, que tiram toda a credibilidade dos e-commerces e que corrompem a relação de confiança que as marcas e lojas precisam estabelecer com seus consumidores”, comenta.

Hoje, a empresa é a única certificadora reviews do País e está conectada a mais de 1,5 mil operações de varejo no Brasil. Na sua carteira de clientes estão grandes players do mercado como, por exemplo, Centauro, Havaianas, Electrolux, Drogasil e Telhanorte.

O caminho até chegar neste patamar foi cercado de nuances e desafios, especialmente para achar pessoas que “comprassem” a ideia da Trustvox e investissem no negócio. Neste momento, recorda, houve dificuldades a mais por conta do gênero.

“Sofri bastante preconceito, porque muitos ‘investidores’ e pessoas que se diziam interessadas em investir colocavam em xeque a capacidade de entrega e de resiliência da startup por ela ser liderada por uma mulher”, conta.

Tatiana é CEO da Trustvox, única certificadora de reviews do País | Foto: Divulgação

Em reuniões de negócios, a consultora Annelise afirma que as mulheres sempre precisam provar “três vezes mais” que determinada ação deve ser tomada do que um homem. “Nas reuniões, muitas vezes, a gente é cortada, ou a gente fala alguma coisa, os homens ouvem e depois eles falam a mesma coisa de forma diferente e todo mundo bate palma. No mundo executivo, corporativo, infelizmente, a gente ainda passe dificuldades em reuniões e negociações”, afirma.

Vale do Silício também não tem igualdade em número de profissionais

O maior ecossistema de inovação e startups do mundo, o Vale do Silício, também registra problemas em relação à igualdade de gêneros.

Antes de se tornar CTO da Cuidas (startup que trabalha na conexão de empresas com médicos de família para atendimentos no próprio local de trabalho), Deborah Alves, 25 anos, formou o time de Engenharia de Software da Quora, no Vale do Silício.

Deborah faz questão de ressaltar que a experiência internacional foi “muito enriquecedora”: a boa relação com os colegas de trabalho e a rápida ascensão na empresa foram fatos que marcaram a temporada por lá.

Sobre a quantidade de profissionais homens e mulheres nos departamentos de tecnologia, ela ressalta que, tanto lá, quanto aqui, o número de mulheres segue muito reduzido: “Acho que, no geral, não existe tanta diferença: em ambos os lugares ainda há poucas mulheres e ambos os lugares há iniciativas para aumentar a presença das mulheres no mercado de tecnologia”.

Entretanto, a jovem, que é formada em Ciência da Computação e Matemática por Harvard, comenta que há diferença no número de estudantes nas turmas de tecnologia nos dois países. “Em Harvard, a turma de computação tinha entre 30% ou 40% de mulheres, enquanto aqui tem 10%, se isso”, observa.

A profissional conta que nunca teve problemas mais sérios por questões de gênero durante sua trajetória. No caso dela, os problemas, quando ocorrem, são “sutis”, como a própria define. “Às vezes preciso citar meus carimbos de Harvard para mostrar que eu entendo do assunto para pessoas novas que conheço”. Mas as dificuldades param por aí. “Tenho plena consciência que eu não sou a regra, sou a exceção”, admite.

Com passagem pelo Vale do Silício, Deborah revela que por lá as mulheres também são minoria no mercado de tecnologia | Foto: Divulgação

Sobre o machismo dentro das corporações, Deborah opina que a postura dos chefes são fundamentais para disciplinar e servir de baliza para o restante dos colaboradores. “Esse trabalho é de cima para baixo. Se você tem um CEO machista, provavelmente toda a empresa vai ser mais machista”, constata.

Na visão de Annelise, as mulheres têm conseguido superar esses desafios, e os eventos de tecnologia servem de termômetro para isso. “Há dez anos eu ia aos eventos de tecnologia e andava de cabeça baixa, porque era uma proporção de 300 homens para quatro mulheres dentro de um salão. Hoje são raros os eventos que só homens palestram”, avalia. “A gente quer ter mais liberdade e mais respeito”, conclui.

Evento no ABC incentiva a entrada de mulheres no ecossistema de startups 

A Associação Brasileira de Startups (Abstartups) conta com mais de 10 mil startups cadastradas em seu banco de dados. Destas, apenas 13% têm CEO’s do sexo feminino.

O baixo número de mulheres no comando de startups incentivou a comunidade ABC Valley a tomar medidas em relação ao assunto. A funcionária pública e diretora de Ecossistema de Startups do Instituto de Tecnologia de São Caetano do Sul (Itescs), May Takata, é uma das organizadoras do Startup Weekend Women ABC. A iniciativa ocorrerá de 8 a 10 de março, no Locus Business Center, em São Bernardo do Campo.

Essa é segunda edição do Startup Weekend realizada no ABC (a primeira ocorreu em agosto do ano passado), evento de 54 horas que realiza a imersão dos participantes no ecossistema de startups. Durante o fim de semana, diversas ideias são apresentadas e as melhores passam por validação. O objetivo é que os grupos formados apresentem um pitch à banca de avaliadores no fim do evento. As melhores startups receberão prêmios – entre eles algumas sessões de mentoria.

A diferença da primeira para a segunda edição do evento no ABC fica por conta do foco voltado às mulheres. Nesta edição, 25% das vagas são reservadas para homens e o restante deve ser ocupado por mulheres.

Para ela, as meninas não são incentivadas desde cedo a explorarem as questões tecnológicas e das ciências exatas. Dados do Instituto Mauá de Tecnologia corroboram a opinião da organizadora. Entre 2016 e 2018, o número de matrículas nos nove cursos de engenharia da instituição seguem estáveis: entre os inscritos nos cursos, o número de meninas variou entre 31% e 33%.

“A mulher sempre é cultivada a brincar de boneca. Ela nunca é incentivada a virar cientista, a estudar coisas, entre aspas, de menino”, afirma May. “O evento fomenta o ecossistema para que mulheres sejam incentivadas a empreender e a entrar na tecnologia”, explica. Para se inscrever, é necessário acessar: https://www.sympla.com.br/startup-weekend-santo-andre__376776.

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