O ano de 2019 entrou na sua segunda metade e em termos econômicos o País ainda não registrou índices que mereçam entusiasmadas comemorações. O relatório Focus, elaborado pelo Banco Central e divulgado em 15 de julho último, registrou a vigésima queda seguida do Produto Interno Bruto (PIB). O documento reduziu a projeção do crescimento econômico brasileiro de 0,82% para 0,81%.

A estimativa acompanha os dados do Ministério da Economia, que pouco dias antes, em 12 de julho, também diminuiu a projeção.

Os maus resultados econômicos acumulam anos no Brasil. Esperava-se que em 2019 o desempenho fosse melhor. Todas as fichas governistas no campo econômico estão depositadas na Reforma da Previdência, que por conta de dificuldades de articulação do Executivo será votada em definitivo apenas no segundo semestre do ano.

Parte dos gestores públicos de outras esferas e empresários já estão cientes, há algum tempo, que depender das iniciativas do governo federal não é bom negócio e buscam soluções menos sujeitas à inércia atuação dos poderes Legislativo e Executivo alocados na capital federal.

No ABC, cresce o número de pessoas que acreditam que os setores de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) das empresas devem ser fortalecidos para que o País dependa menos das commodities e avance na industrialização.

Parques Tecnológicos são opção

Dentro deste contexto, o investimento em Parques Tecnológicos (PT) é umas das opções. Os parques, por definição, são locais voltados à pesquisa científica e visão empreendedora, com apoio governamental, e são planejados para gerar desenvolvimento econômico e novas tecnologias.

O presidente do PTS, Roberto Freitas cita os números para defender a importância do local | Foto: Divulgação

Geralmente estes espaços contam com ampla estrutura, como laboratórios, incubadora de negócios, espaços para congressos, áreas de formação técnica e espaços de convivência, para potencializar o networking. O local também reserva espaços para alocar empresas de todos os portes e universidades.

O presidente do Parque Tecnológico de Sorocaba (PTS), Roberto Freitas, avalia que ambientes de inovação são essenciais para os municípios que pretendem se posicionar no novo modelo de desenvolvimento econômico exigido neste momento. “Em todos os países desenvolvidos há uma forte crença da necessidade se investir em ciência, inovação e tecnologia para melhorar a qualidade de vida da população e acelerar o crescimento econômico de um território”, comenta.

Embora, quando comparado com outros países, estes complexos não tenham tanta adesão no Brasil, já existem dezenas deles espalhados por nosso território e alguns casos de sucesso concretizados.

Um deles é o Porto Digital (PD), localizado em Recife, no Pernambuco, que ostenta números expressivos. Criado em 2000, o empreendimento recebeu R$ 33 milhões de aportes do governo estadual, que pretendia com a iniciativa fomentar o desenvolvimento econômico não vinculado ao turismo.

O parque recifense abriga 300 empresas (em sua maioria ligados aos setores de Tecnologia da Informação e Comunicação, Economia Criativa e Tecnologias para Cidades) e 9 mil profissionais. Transformou a região, com certeza, no ecossistema de inovação mais maduro do Nordeste.

No case do PD, além dos benefícios ao ambiente de negócios, há também méritos sociais. Instalado há poucas quadras do turístico Marco Zero da cidade, no Centro antigo de Recife, o nascimento do Parque foi fundamental para o processo de revitalização da área. A arquitetura do bairro reúne diversos estilos com inestimado valor histórico e após a chegada do complexo foram feitos investimentos de aproximadamente R$ 90 milhões em revitalizações, estima a direção do PD.

ABC aguarda a instalação de Parque

Santo André conseguiu, em janeiro de 2016, credenciamento junto ao Sistema Paulista de Parques Tecnológicos (SPTec) para instalar um Parque Tecnológico na cidade. SPTec é o órgão vinculado a Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação (SDECTI) do Estado de São Paulo  responsável por autorizar, ou não, a instalação de PT no estado.

Para obter o credenciamento, Santo André se adequou a diversos requisitos exigidos pelo Decreto n° 60.286, de 25 de março de 2014, como comprovar viabilidade técnica e econômica, possuir uma Incubadora de Empresas de Base Tecnológica em funcionamento, apresentar documentação com manifestação de apoio à implantação do parque assinado por empresas locais, dentre outros itens.

A Prefeitura promete há tempos colocar em funcionamento o Centro de Inovação, que será o responsável pelo pontapé inicial do PT andreense. O local ficará na Avenida dos Estados, em área desapropriada, onde funcionava a Rhodia Química, defronte à  Universidade Federal do ABC.

Complexo conta com ampla infraestrutura, com auditórios, laboratórios, espaços de coworkings, e diversas empresas instaladas | Foto: Divulgação

Com exclusividade à Negócios em Movimento, o prefeito da cidade, Paulo Serra, informou que o Executivo conseguiu a aprovação de financiamento, junto à Caixa Econômica Federal, para iniciar as obras no local. O montante total do crédito é de R$ 60 milhões.

A verba terá vários fins (além do Centro de Inovação, ela será destinada a projetos da área da Saúde, Cultura e para recapeamento de vias). “Deve ser algo em torno de R$ 3 a 4 milhões para a gente começar a obra (do Centro). A gente estípula uns nove meses de intervenção, com início no primeiro semestre do ano que vem”, comenta o prefeito. O projeto do espaço prevê auditório, incubadora e espaço de coworking.

O Parque Tecnológico de Santo André é motivo de grande expectativa por empresários do ABC. Contudo, o coordenador do Ecossistema de Startups da Agência Paulista de Promoção de Investimentos e Competitividade (InvesteSP), órgão que também está sob o guarda-chuva do SDECTI, Franklin Ribeiro, não se entusiasma tanto com a ideia.

“Se só instalar, ele não vai funcionar para ativar o ecossistema. Tem que ter uma movimentação no entorno do Parque. Não pode ter só o Parque, estrutura parada, só inaugurar e ele não pode ser uma coisa burocrática”, afirma, ao fazer alusão para o risco do espaço se tornar um “elefante branco”.

A euforia em torno da chegada do PT é gerada por conta de experiências positivas vinculadas à complexos parecidos com o projetado para o ABC. O Estado de São Paulo conta com 13 Parques Tecnológicos em funcionamento (dois destes estão, ainda, com credenciamento provisório da SPTec) espalhados pelo interior e litoral.

Empreendimento em Sorocaba impulsiona registro de patentes

“O Parque Tecnológico de Sorocoba (PTS) é um ambiente de geração e troca de conhecimento visando crescimento econômico e social da região”, define Freitas.

No momento, o espaço conta com 25 startups incubadas, seis empresas e projetos desenvolvidos por acadêmicos de sete universidades, além de centros de pesquisas. O presidente comenta que o complexo registra “avanços extraordinários” e cita números eloquentes para defender a afirmação.

Eduardo Cicconi, gerente do Supera Parque, destaca a vocação de Ribeirão Preto para a Saúde | Foto: Divulgação

Durante os sete anos de atuação, mais de 250 startups foram apoiadas e aceleradas via incubadora do PTS; destas, aproximadamente 50 estão no mercado e faturam cerca de R$ 200 milhões por ano e empregam mais de 300 pessoas “com salários acima da média da população local”; os trabalhos desenvolvidos por lá resultaram em mais de 50 patentes registradas. “Isso (os dados) são um grande indicador de desenvolvimento da inovação”, afirma.

Assim, o PTS contribui para que Sorocaba siga sendo o “município líder” das 27 cidades que congregam aquela região e comande o “processo de transformação da economia local”, afirma Feitas.

Em São José dos Campos, o primeiro

O primeiro complexo deste tipo a obter o credenciamento definitivo no Estado de São Paulo foi o Parque Tecnológico de São José dos Campos, denominado de PqTec, que obteve a licença de funcionamento em  2010. A cidade já tinha uma tradição em estudos científicos e tecnológicos, especialmente por conta do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), que funcionava no município há décadas e deu origem a gigante Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer).

No PqTec, uniram-se a esta vocação existente no setor aeronáutico as áreas de Tecnologia da Informação e Comunicação e Saúde. Os três setores contam com empresas âncoras instaladas no local que buscam soluções para demandas em seus segmentos de atuação. Há também outras empresas, menores, que utilizam acadêmicos para a soluções dos problemas que se propõem a resolver.

O complexo conta com movimentado calendário de eventos, com palestras, workshops, treinamentos, entre outros. Além das atividades esporádicas, existem também ações com periodicidade fixa, como é o caso da reunião entre startups.

Trata-se de um encontro mensal entre todas as startups do empreendimento, no qual os gestores das iniciativas compartilham as “dores”, dificuldades e demais experiências entre eles. Das discussões surgem soluções que contribuem como o desenvolvimento de todos os negócios.

O diretor-geral do PqTec, Marco Antonio Raupp, esclarece que propósito do local é “traduzir o conhecimento em bens, processos e serviços de alto valor agregado”. Para isso, também apostam na receita de colaboração entre empresas, de todos os portes, universidades e poder público.

“Para dar efetividade a essa confluência, procuramos criar os instrumentos de estímulo necessários para uma resposta à demandas de setores avançados, que têm a necessidade de manter a sua sustentabilidade e a sua competitividade por meio de um ambiente de pesquisa, inovação e empreendedorismo”, afirma.

Um motivo de orgulho para o PqTec foi a assinatura de contrato, em 4 de julho deste ano, com a Companhia de Desenvolvimento de Maricá (Codemar). O acordo prevê que o PqTec faça a estruturação e implantação de infraestrutura de apoio à pesquisa, desenvolvimento e inovação em tecnologia em Maricá (RJ). O trabalho resultará na criação do Parque Tecnológico da cidade. O PqTec foi selecionado, após concorrer em edital com outras instituições de credibilidade.

Sair vencedor do certame, para Raupp, comprova o sucesso e a expertise do complexo. “Ser escolhido é um reconhecimento e indicativo de que as metodologias e o modo de trabalhar do Parque Tecnológico São José dos Campos estão ganhando espaço. Ajudar a criar o Parque de Maricá tem um grande valor para nós, não só porque estamos ampliando nossa atuação em outras áreas geográficas, mas também em outros setores industriais”, valoriza o diretor-geral.

Saúde é a vocação do Supera, de Ribeirão Preto

Ribeirão Preto, uma das maiores cidades do Estado, também possui um PT. Intitulado “Supera Parque”, o complexo foi inaugurado em 2014 e dá continuidade aos trabalhos que antes eram desenvolvidos em menor escala na Incubadora de Negócios, que começou a funcionar em 2013. Ao todo, 78 empresas estão instaladas no Parque.

De acordo com o gerente do Inovação e Tecnologia do local, Eduardo Cicconi, o Supera oferece toda a estrutura necessária para o desenvolvimento do negócios. Ele cita as mentorias e as orientações disponíveis para diversas áreas, como administração, marketing e registro de marcas, por exemplo.

“Nós realizamos a conexão das nossas empresas com o mercado, incentivando a participação em grandes eventos em suas áreas de atuação, seja no Brasil ou no exterior”, conta. O maior número de iniciativas presentes do Parque de Ribeirão envolve o setor de Saúde, mas também existem negócios de Biotecnologia, Agronegócio, Cosméticos, entre outros.

É importante citar que o protagonismo no setor de Saúde de Ribeirão Preto é anterior ao nascimento do Supera – o município sedia a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), o Hospital das Clínicas e diversas instituições privadas que possuem cursos e pesquisas neste segmento, lembra Cicconi.

Conselhos para Santo André

Para a instalação do Parque Tecnológico de Santo André, o presidente do PTS ressalta que é essencial  um bom planejamento. Convidado a analisar os anos de trabalho de Parque e elencar possíveis equívocos cometidos, para que o empreendimento andreense não caiu nos mesmos erros, Freitas lamenta que o PTS não tenha sido projetado, desde o início, para ser um ambiente condominais de empresas de base tecnológica no mesmo modelo de condomínios industriais privados.

“Acredito que ambientes modernos de inovação precisam se abrir para se transformar em um grande ‘bairro da inovação’, um espaço para troca do conhecimento, que trabalhe as áreas ligadas a ciência, inovação e tecnologia de forma aberta, com a participação de toda população que se interessa pelo tema”, analisa.

O gerente do complexo de Ribeirão Preto faz questão de recomendar que o Parque andreense não abra mão de basear suas ações em “ciência de alto nível” e reforça a importância de agregar atores públicos e privados.

Raupp, por sua vez, lembra que a participação industrial no PIB brasileiro acumula quedas nos últimos 30 anos e defende que os ambientes de inovação precisam ganhar musculatura para ter mais influências nos processos industriais. “A inovação é fundamental na nova fase da indústria brasileira e devemos equilibrar as visões das empresas e dos acadêmicos, de modo a aprofundar conhecimento para chegar a produtos inovadores”, conclui o diretor-geral do PqTec.

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