Reorganização da Agência de Desenvolvimento busca conectar agentes econômicos do ABC

Criar conexões e unir experiências que até então têm sido desenvolvidas de maneira isolada é estratégia do órgão para fomentar o desenvolvimento econômico da região e recuperar o protagonismo da entidade perdido ao longo dos últimos anos

Foto: DivulgaçãoAGABC/Arquivo

Há pouco mais de um trimestre, em 14 de maio, Aroaldo Oliveira da Silva assumiu a Presidência da Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC. Oriundo do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, o novo presidente tinha uma clara missão: reestrutura a Agência e recuperar a credibilidade do órgão.  

Embora o fim da entidade não tenha sido decretado oficialmente, a verdade é que a instituição foi sucateada nos últimos anos e, na prática, teve os trabalhos descontinuados, após duas décadas de serviços prestados à região. 

Dentro do contexto do abandono do órgão, a Agência passou por sérias dificuldades financeiras, já que questões políticas e burocráticas inviabilizaram as contribuições financeiras das sete prefeituras da região à entidade.  

Outras instituições organizadas da sociedade civil, como associações e sindicatos, também deixaram de fazer repasses à Agência, após constatar a situação do órgão. 

Quando Silva assumiu, o quadro era este, de abandono. Nestes primeiros meses de mandato (que vai até abril de 2022) a estratégias tem sido a de dialogar com o maior número de representantes de variados setores do ABC para, além de recuperar a credibilidade da entidade, uni-los em prol do desenvolvimento econômico regional.  

“A gente vai conectar as experiências, porque todos os atores da região, sem exceção, em maior ou menos grau, já estão fazendo alguma coisa. A gente precisa conectar as experiências para colocar o ABC num rumo só”, explica.  

Na área econômica, os desafios do ABC são fartos. A pandemia e o mau momento econômico vivido pelo País nos últimos anos colocaram ainda mais obstáculos para a região, que busca redescobrir sua vocação econômica ou, ao menos, ampliá-la, já que as notícias vindas do setor industrial automotivo nos últimos tempos não têm sido animadoras.  

Estes e outros temas foram abordados em encontro de Silva com a reportagem deste periódico digital. O presidente nos recebeu após reunião com representantes de diversas universidades do ABC, em mais um esforço dele em se aliar ao setor educacional da região – que ele entende que deve ser protagonista e “ponto central” nos debates que envolvem a Economia o futuro das sete cidades.  

Na ocasião, além de dialogar sobre os trabalhos desenvolvidos no órgão, a reportagem conheceu a enxuta, e bem intencionada, equipe da Agência – composta por cinco integrantes, contando com o presidente – que tenta devolver o prestigio que a entidade teve em outrora e contribuir como o desenvolvimento do futuro regional.  

Abaixo, confira os principais pontos da entrevista: 

Negócios em Movimento (NM): Como está a questão institucional da Agência? Havia uma dificuldade de financiamento do órgão. As prefeituras retornarão com os repasses?  

Aroaldo Oliveira da Silva (AOS): A gente retomou as conversas com as prefeituras e já começamos a conversar nesse sentido, das prefeituras retornarem para dentro da Agência enviando os projetos para as Câmaras municipais, para que elas autorizem o repasse direto à Agência. As prefeituras estão trabalhando nisso, estamos dialogando. E com o setor privado também. Estamos conversando com associações, universidades, sindicatos… estamos até discutindo sobre a alteração do estatuto da agência, para que a indústria da região também possa se tornar membro da agência.  

Porque a composição da agência, além do poder público, com as sete prefeituras, ela é composta por segmentos: sindicatos, universidades, Polo Petroquímico e associações comerciais. Os Ciesps (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo) não se filiam a nenhuma entidade, por princípio deles, então o setor industrial fica sem estar diretamente ligado à agência. Então estamos discutindo a mudança no estatuto para a indústria poder se filiar também na agência.  

NM: As sete prefeituras já se comprometeram a enviar os projetos para às Câmaras?  

AOS: Conversamos com todas. Cinco prefeituras já se comprometeram a enviar, as outras a gente continua as conversas para ajustar algumas questões.  

NM: Lá atrás, algumas associações e sindicatos também contribuíam financeiramente com a Agência. Essas entidades continuaram contribuindo ou pararam? 

AOS: Em determinado momento da Agência, em problemas do passado, diversos trabalhos pararam. Desmontaram a Agência no passado. Então, todo mundo que vinha contribuindo com a agência, na hora que viram que a Agência estava sendo desmontada e os projetos pararam, deixaram de contribuir. Agora estamos retomando isso, as conversas e os trabalhos, para mostrar que a Agência é importante.  

NM: Observamos que vocês estão buscando uma reaproximação com vários setores da sociedade. Como está a receptividade em relação a esse novo momento da Agência? 

AOS: A receptividade está melhor do que imaginávamos. Existia uma carência de ter um interlocutor que integrasse as ações aqui na região, as iniciativas das universidades, associações, empresas e até mesmo do poder público. Às vezes as secretarias estão discutindo algumas questões importantes, mas que acabam ficando isoladas, porque não há ninguém para conectar.  

A gente tem uma avenida pela frente e nós precisamos ocupar ela. Nós temos agenda praticamente todo dia, sobre diversos temas, e eu vejo as pessoas com ideias. As instituições com projetos, que estavam ali, sozinhos, sem saber como expandir, para quem apresentar. E a gente está tentando criar essas conexões.  

O que a gente definiu desde o início? Que a gente não iria criar nenhum projeto novo. Desde o primeiro dia a gente se dispôs a falar com todos os parceiros. O que eles estiverem fazendo nós vamos conectar. A Agência tem a tarefa de conectar todas as experiências, ofertas e demandas, das mais diversas áreas da região.  

NM: Vocês estão criando um Grupo de Trabalho sobre Eletromobilidade. Por quê? 

AOS: Esse debate começou porque a gente fez um Grupo de Trabalho (GT) sobre Indústria. A nossa região é industrial, o ABC surge no mapa do Brasil e do mundo resultado da política industrial, ainda lá com JK (Juscelino Kubitschek, presidente do Brasil entre 1956 e 1961), na política para o setor automotivo. Mas durante os anos a região ficou carente de ter um ator que dialogasse com a indústria. 

Na retomada da Agência a gente começou a falar com esse setor, com os Cieps e as indústrias de uma forma geral, e eles reclamaram que não tinha mais ninguém que fosse o guarda-chuva do debate da região sobre a indústria. As montadoras faziam a coisa de um jeito, o Polo Petroquímico de outro, as outras empresas químicas de outro, autopeças, têxtil… carecia de ter um agente que pudesse dialogar com a indústria de uma forma geral. Então, a gente se propôs a isso e criamos o GT de Indústria.  

E nas conversas do GT de Indústria surgiu o debate da eletromobilidade. Então, no desdobramento desse GT, algumas empresas falaram com a gente que queriam fazer uma conversa setorial e que a questão da eletromobilidade ia precisar de um olhar específico. Tem algumas iniciativas da região por parte indústria automobilística da alteração do veículo, da propulsão, da motorização do veiculo, e isso é um foco, mas tem algumas empresas da região que estão discutindo infraestrutura para eletromobilidade. Por isso a gente criou esse Grupo de Trabalho específico para o assunto. 

NM: Existem muitas questões nessa área, a adequação da cadeia produtiva, a capacitação da mão de obra também precisa ser pensada. 

AOS: Realmente, são muitas questões: o veículo que tem que ser reconfigurado, e já existem as experiências que as montadoras estão tocando, a cadeia produtiva vem fazendo isso, mas na hora que o veículo elétrico estiver andando na rua tem que ter a infraestrutura para dar esse suporte.  

E na hora que ele quebrar, quem vai fazer a manutenção? A mão de obra é de extrema importância, ninguém tem esse know-how ainda. No Rota 2030 (programa do governo federal destinado à indústria automotiva) tem um debate sobre isso. Diversos atores da região participam do Rota 2030 e um dos pontos é essa requalificação profissional. Tempo atrás o Sindicato dos Metalúrgicos  junto com a Toyota, que está mais a frente no debate sobre eletromobilidade, começou a desenhar como ficaria essa requalificação.  O Rota 2030 é uma iniciativa importante, mas tem as suas limitações e a gente desdobrar o diálogo de forma geral. Por isso a importância da região discutir isso. 

NM: E as montadoras estão pensando em produzir esses veículos aqui? Porque não adiantar elas planejarem a migração para eletromobilidade se os planos para a produção desses veículos não envolver o ABC. 

AOS: A gente tem um problema no Brasil, que é diferente da Europa, diferente dos Estados Unidos. O (Joe) Biden (presidente dos Estados Unidos), por exemplo, depois que assumiu traçou um plano para eletromobilidade, pôs dinheiro. No Brasil a gente tem um problema, o governo federal ainda não criou um marco da mobilidade.  

E aí o que acontece: cada montadora vai tentando achar o seu caminho. O governo federal não traçou o caminho, que é o papel dele. “Olha, a motorização do veículo vai para esse caminho, então nós vamos converter para eletromobilidade e fazer isso e aquilo”. Isso tem acontecido nos outros países, mas a gente não tem isso no Brasil. 

Então esse debate ainda está muito confuso. Tem um estudo que a ANFAVEA lançou sobre isso que desenha alguns cenários, mas nãodesenha o cenário concreto, ainda fica muito solto. Por isso é importante a gente acumular experiências e mostrar caminhos. 

NM: Isso é uma limitação muito grande para a indústria no Brasil e para o trabalho de vocês. O ideal seria ter uma política industrial nacional, vinda lá de cima, mas isso não existe. Mas é aí acho que eu acho que pode ser importante o papel de vocês, justamente para forçar o debate. Concorda? 

AOS: Sim, o ABC tem um peso. A região sempre pautou o Brasil nessas discussões e tem atores suficientes para dar o direcionamento na formulação (de políticas para esse segmento), mas a região perdeu esse protagonismo. O debate aqui na Agência vem para, não só no setor automotivo, mas nos outros também, resgatar esse protagonismo.  

NM: Os senhores estão acompanhando o movimento das startups no ABC? O que pensam sobre esse segmento?  

AOS: Acho que esse setor é de extrema importância. O mundo, ainda mais depois da pandemia, passa pela discussão da inovação. a gente já vinha numa reorganização das cadeias produtivas no mundo, as cadeias de valor já estavam se reorganizando, e a pandemia acelerou essa reorganização. Quem não tiver discutindo isso vai estar fora. 

E a inovação tá no centro (desse debate). Inclusive, uma das nossas tarefas é mudar o nome da agência, acrescentar “inovação” no nome, para ficar Agência de Desenvolvimento Econômico e Inovação do Grande ABC. Porque o desenvolvimento econômico vai passar por inovação e nada mais inovador e que produza inovação do que as startups, que conseguem produzir inovação de maneira ágil, conseguem dialogar sem algumas burocracias que estão presentes em outras instituições, por isso diversas entidades estão apostando nas startups.  

Acho que é um foco importante. O Sebrae vem trabalhando muito forte nessa área e outras instituições também. E a gente quer dialogar e conectar essas experiências.  

NM: O senhor acabou de se reunir com representes de diversas universidades. Qual será o papel delas?

AOS: Quando a gente começou as conversas para a reconstrução da Agência, a gente começou pelas universidades. Conseguimos falar com 17 universidades da região. Nós estamos trazendo elas para o centro do debate da Agência, porque elas têm projetos efervescentes sobre todos os temas. Indústria, Economia Social, Turismo, indicadores da região, ecossistema regional de inovação… elas já estão produzindo muita coisa. Por isso estamos trazendo elas para o centro do debate, para ajudar os setores, a iniciativa privada e o poder público no desenvolvimento de ações.  

O ABC é um território universitário e a gente dialoga pouco isso. A gente de forma geral, como sociedade. Nós temos muitas universidades aqui, acumulando conhecimento. O ABC tem que se colocar como território universitário, porque é um território de conhecimento. A gente precisa criar essa marca para nossa região. 

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here