Saída precoce do isolamento trará mais prejuízos para a economia, constata estudo da UFABC

Fim prematuro da quarentena pode ocasionar novos confinamentos por período indeterminado | Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal do ABC (UFABC) e da Universidade de Bristol (Inglaterra), e divulgado ontem (2), indica que o fim do isolamento social de forma precipitada pode ter efeito nefasto, para a saúde da população e para a economia em médio e longo prazo. Isto porque a transmissão comunitária do coronavírus (Covid-19) pode perpetuar-se, com surtos da epidemia recorrentes e por tempo indeterminado.

As constatações foram feitas após a construção de software, que simula diferentes cenários de evolução da transmissão comunitária do vírus, sob determinadas condições de confinamento, de reintrodução do vírus no ambiente, imunidade ou mutação das cepas do patógeno.

De acordo com a pesquisa, em caso de outros surtos da pandemia, seria necessário recorrer a novos períodos de quarentena, o que traria prejuízos maiores para a economia do País – até a criação de uma vacina e outros tratamentos que pudessem conter o coronavírus.

Segundo a constatação dos acadêmicos, a saída da quarentena e do isolamento representa um fator decisivo, pois caso isso ocorra de forma antecipada pode reiniciar um processo agudo de contaminação.

Foto: Aline Veridiano

Um dos autores do trabalho, economista e professor da UFABC, José Paulo Guedes, conta que todos os casos simulados reforçam a eficácia da estratégia de confinamento máximo, extremo, como a melhor forma de achatar a curva de dispersão do vírus. “A eficácia mais garantida depende de uma alta porcentagem de isolamento de, aproximadamente, 90% das pessoas durante os surtos de contaminação”, aponta o pesquisador.

Guedes explica que um agente contaminado é reintroduzido a cada três meses no ambiente e, mesmo que tenhamos alta imunidade ao vírus, um comportamento cíclico de contágio só cessaria caso fosse estabelecido o isolamento nesse nível durante os surtos.

O artigo acadêmico avaliou diferentes cenários, em que o mais pessimista considera a inexistência de confinamento e isolamento: nessa condição, enfrentaríamos uma recorrência de surtos de contaminação social (crescimentos seguidos de baixas) em curtos períodos de tempo e a convivência com o Coronavírus por tempo indeterminado. “Além do fator social evidente, podemos dizer que a previsão atual de quedas drásticas nos PIBs dos países desenvolvidos, algo que pode chegar até -18%, será ainda pior em um cenário cíclico”, comenta Guedes.

Junto com José Paulo Guedes, assinam a pesquisa e o código do simulador: Patrícia Camargo Magalhães (física, pós-doutoranda na Universidade de Bristol) e Carlos da Silva dos Santos (cientista da computação e professor da UFABC).

ferramenta funciona on-line e pode ser abastecida livremente por usuários para simulações, usando parâmetros como densidade populacional, imunidade, capacidade e janela de transmissão, dentre outros. A aplicação adaptou um modelo desenvolvido, em 1998, que simula a disseminação do vírus da gripe, agora reprogramado com as condições conhecidas do novo “supervírus”.


Os pesquisadores desenvolveram a plataforma de maneira independente e buscam financiamento de agências de fomento, para ampliar as variáveis e envolver especialistas de outras áreas. O software é aberto para uso público com objetivo de servir tanto para fins educacionais e de pesquisa, como para, de forma cautelosa, tomada de decisões.

O estudo completo está disponível aqui.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here