O crescimento de startups que atuam no mercado financeiro, as chamadas fintechs, já impactam significativamente no cotidiano da população e na economia brasileira. É o que aponta o estudo Bancos e Fintechs: Colaboração e Competição que afetam o emprego nos bancos e a oferta de serviços bancários, publicado da 9ª edição Carta de Conjuntura da Universidade de São Caetano do Sul (USCS), lançada em setembro. A pesquisa analisa os impactos, positivos e negativos, causados pela transformação no setor, impulsionados pelas ferramentas tecnológicas.

Após contextualizar as transformações do setor nos últimos anos e relembrar as medidas adotadas pelo Banco Central sobre o assunto, o estudo ressalta os altos valores empregados pelas instituições financeiras em tecnologia – entre despesas e investimentos, as instituições brasileiras desembolsaram R$ 19,6 bilhões em tecnologia em 2018, de acordo com dados da Pesquisa de Tecnologia Bancária da Federação Brasileira de Bancos (Febraban).

Em relação ao panorama das fintechs no Brasil, o artigo repercute os dados do Radar Fintechlab, que realiza o mapeamento do setor desde 2015. Em junho de 2019, o levantamento registrou 604 fintechs ativas no País. Na comparação com os dados da pesquisa anterior, de agosto de 2018, houve crescimento de 33% no número deste tipo de instituição.

Contudo, o dado que mais ilustra as transformações do setor refere-se as Transações Bancárias por Canal. Em 2012, as transações realizadas via celular representavam 1% do total (foi somente neste ano que elas passaram a ser contabilizadas); em 2018, elas passaram a representar 40% das transações.

De acordo com a responsável pelo artigo, Vivian Machado de Oliveira Rodrigues, isso ocorre, principalmente, por conta dos esforços dos bancos em direcionar os atendimentos para os canais digitais. Para ela, (que é economista graduada pelo Centro Universitário Fundação Santo André, mestre em Economia Política pela PUC-SP e técnica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos – DIEESE), o objetivo é claro: reduzir custos.

Embora tenha benefícios, essa estratégia traz enormes prejuízos à população idosa, que encontra dificuldades de adaptação com as novas modalidades.

A maior fintech do Brasil, a Nubank, batizou a porta-giratória de “peça de museu” em ação publicitária | Foto: Divulgação

Mercado de Trabalho sente efeitos negativos

Outra faceta negativa das mudanças no setor observado pela pesquisadora do Observatório de Políticas Públicas, e Empreendedorismo e Conjuntura da USCS (órgão responsável pela elaboração da Carta de Conjuntura) é registrada nos dados do Mercado de Trabalho (MT). Na medida em que o número de atendimentos por canais digitais aumenta, a quantidade de funcionários do setor diminui.

Em cinco anos e meio, o número de bancários diminui mais de 10% – houve redução de 62 mil postos entre 2013 e junho deste ano, de acordo com dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS).

A queda no número de vagas é acompanhada na redução do número de pontos de atendimento oferecidos pela instituição – houve uma redução de quase 6 mil pontos de atendimentos nos últimos cinco anos, segundo a Febraban.

De acordo com a pesquisadora, este quadro acarreta um ritmo de trabalho do bancário cada vez mais acelerado, o que desencadeia em mais casos de adoecimento e afastamentos por transtornos mentais, além de elevar o número de casos de assédio moral.

Sobre a redução do número de postos de trabalho, também existe alguma influência dos anos de crise econômica pelo qual o País passa. Não é possível precisar, contudo, qual a influência exata de cada fenômeno no quadro.

Movimento deve seguir

A tendência de redução na categoria dos bancários e no número de pontos de atendimento parece ser irreversível. Além de novos avanços tecnológicos surgirem cotidianamente, a redução no número de trabalhadores é vista com bons olhos pelo sistema financeiro como forma de maximizar os lucros.

E há, também, a questão geracional, conforme lembra Vivian. “O público jovem pode perder a carteira, mas não o celular. Ele não quer ter que ir ao banco. Existe a questão geracional”, aponta.

Fintechs e democratização do setor

No Brasil, ainda persiste um alto número de pessoas desbancarizadas, isto é, aquelas que não possuem contas em bancos. As fintechs exercem papel importante neste sentido e podem facilitar o acesso dessa camada da população a serviços financeiros.

Efeitos dos avanços tecnológicos é ruim para o Mercado de Trabalho; número de postos recua | Foto: Reprodução

Outro cenário consolidado no Brasil e que as startups do mercado financeiro têm a possibilidade de contribuir positivamente, é em relação ao elevado grau de spread bancário do País (por spread entende-se a diferença no valor que as instituições financeiras pagam para angariar recursos e o que eles cobram ao conceder empréstimos aos clientes).

Especialistas avaliam que o surgimento de mais fintechs possa diminuir a concentração do setor, aumentar a concorrência e gerar taxas mais atrativas para a população.

Os bancos dominantes no mercado parecem ter avaliação parecida e se movimentam para não serem pegos desprevenidos.

Em seu artigo, a pesquisador alerta que “é na forma de aceleradoras ou construindo hubs de inovação e, até mesmo, como investidores, que os grandes bancos estão se aproximando das fintechs, de forma a absorverem parte dos desenvolvimentos tecnológicos em seus próprios sistemas”.

Com outras palavras, acontece, em muitos casos, dos próprios bancos incentivarem a criação de soluções disruptivas ou de bancos digitais por parte de terceiros; em caso de êxito da plataforma, eles efetuam a compra do negócio.

O banco Bradesco, por exemplo, é detentor do Next, banco 100% digital, fruto da criação do espaço InovaBra. O Itaú, por sua vez, criou o espaço Cubo para abrigar diversas startups durante seu período de testes e validação; na mesma trilha, o Santander dispõe do Radar Santander, para os mesmos fins. Até o Banco do Brasil que, ao menos em tese, sairia atrás nessa corrida por ser um banco público também conta com iniciativa parecida, em Brasília.

“Os bancos, pressionados por essa nova competição, acabam se aproximando dessas desenvolvedoras de tecnologia, na forma de aceleradoras, ou na forma de investidores, e atraindo esses desenvolvimentos que mais se destacam para o próprio sistema”, comenta Vivian.

Portanto, embora as mudanças estruturais do setor financeiro sejam benéficas aos consumidores em muitos quesitos, indiretamente elas podem trazer prejuízos.

“A nova reestruturação nos bancos está levando ao fechamento de um elevado número de postos de trabalho no setor, em prejuízo da economia nacional como um todo, especialmente num momento em que se convive com elevadas taxas de desemprego e queda na renda dos trabalhadores. Os bancários compõem uma categoria de classe média com salário e benefícios que ajudam a movimentar significativamente a economia do País”, conclui a economista.

 

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