Varejo do ABC pode mais

Quarto maior PIB e um dos cinco maiores mercados consumidores do País, o setor varejista das sete cidades tem potencial para faturar muito mais; concorrência com a capital (e seus tradicionais centros comerciais) é um dos desafios | Arte: Redação

O varejo do ABC tem o que comemorar. Após três quedas consecutivas, o volume de vendas do setor cresceu 1,5% em 2017 (na comparação com o ano anterior), o que resultou em uma elevação de 2,1% no faturamento. Os dados são da pesquisa ACVarejo, estudo realizado pela Associação Comercial de São Paulo (ACSP), divulgado no último dia 6.

A região acompanha o ritmo do varejo no Estado de São Paulo, que registrou aumento de 2,5% nas vendas. Das 18 regiões analisadas, as vendas no comércio registraram queda em apenas duas: Presidente Prudente (-0,5%) e Metropolitana Oeste (-1%).

“Os resultados de 2017 marcam o fim da crise do varejo do Estado de São Paulo, cuja retomada deverá ser cada vez mais intensa durante os próximos meses, em linha com a continuidade do crescimento da renda, emprego e crédito”, aponta o relatório da ACSP.

Os dados acima foram fundamentais para outra notícia positiva para o mercado varejista do ABC: a abertura de postos de trabalho. Divulgado em 21 de fevereiro, a Pesquisa de Emprego no Comércio Varejista do Estado de São Paulo (PESP Varejo), da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), indica que o segmento abriu 679 empregos com carteira assinada ao longo de 2017.

O assessor econômico da FecomercioSP, Thiago Carvalho, explica que diante do cenário vivido nos últimos anos, especialmente com a queda no segmento industrial, “era inevitável que o comércio varejista do ABC não sofresse os efeitos negativos da crise”.

Com isso, o setor encerrou 2017 com um estoque ativo de 111.344 trabalhadores formais (alta de 0,6% em relação a 2016) e findou o fechamento de vagas (foram 2.907 vagas encerradas em 2015 e 3.055 em 2016).

“Não compensa os empregos que foram perdidos, mas com esse movimento de recuperação das vendas e da geração de vagas a gente tem uma expectativa otimista para esse ano”, explica Carvalho.

Ao analisarmos o desempenho das nove atividades monitoradas, destacam-se positivamente na geração de empregos os Supermercados (2,8%) e Eletrodomésticos, Eletrônicos e Lojas de departamentos (2,1%). Desempenhos negativos que chamam a atenção foram os observados em Lojas de Móveis e Decoração (-4,8%) e em Concessionárias de Veículos (-1,9%).

Varejo no Estado de São Paulo registrou aumento de 2,5% nas vendas | Foto: Arquivo

Os setores que mais sofreram durante esse período de mau momento econômico com toda certeza foram aqueles relacionados aos bens duráveis e que dependem da liberação de crédito aos consumidores – alguns setores sofreram quedas acima dos dois dígitos, ressalta o especialista.

“Em um ambiente de crise, de desemprego, em que os consumidores não sabem se estarão empregados no mês seguinte, ele não compra este tipo de bem. Ele não vai comprometer sua renda futura com prestações”, comenta.

Atacarejos em alta

Os dois segmentos que registraram as melhores performances nos últimos anos foram aqueles que comercializam bens essenciais, como alimentos, produtos de higiene e medicamentos. “Os dois setores que sofreram menos foram os mercados e as farmácias. Todos os outros tiveram quedas nas vendas e, consequentemente, tiveram ajuste no quadro de trabalhadores” destaca Carvalho.

Entretanto, especialmente nos mercados, a crise econômica acelerou um processo que já estava em curso na mudança dos hábitos dos consumidores. Nos últimos anos, é fácil constatar que os atacarejos ganharam mais espaço no mercado – em levantamento rápido feito pela reportagem, foi constatado quase uma dezena de praças neste formato inaugurados no ABC nos últimos três anos.

“Este é um setor que já vem crescendo há muito tempo. Ele começou focado muito em classes C e D e para abastecer pequenos estabelecimentos comerciais”, analisa o assessor da FecomercioSP. “A gente vê hoje que esse avanço até propiciou algumas mudanças. Existem pesquisas que indicam que até classes A e B passaram a consumir no atacarejo”, completa.

Atenta a esta mudança dos consumidores, as grandes redes varejistas empregam mais atenção a este setor, assim como o formato de pequenos mercados, com características mais parecidas com os chamados “mercados de bairro”. Essa modalidade também cresce, principalmente pela comodidade gerada aos consumidores.

ABC tem potencial, mas capital é empecilho

As sete cidades da região, juntas, somam uma população de 2,7 milhões de pessoas, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Também de acordo com números do Instituto, o ABC possui o quarto maior PIB do País, perdendo apenas para as capitais São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília – a soma das riquezas geradas pela região ultrapassa os R$ 100 bilhões.

Dados como estes colocam o ABC entre os cinco maiores mercados consumidores do Brasil e o credenciam para transformar a região em um grande polo varejista.

Mas, na prática, não é isso o que acontece. Embora a região disponha de parques comerciais movimentados, especialmente nas regiões centrais de Santo André, São Bernardo do Campo e Mauá, e de diversos shoppings centers (muitos deles inaugurados nesta década), é nítido que o potencial do ABC não é explorado em sua totalidade.

Um dos fatores que explicam isso, é a forte concorrência exercida pela capital.

Carvalho comemora a criação de vagas no setor | Foto: Divulgação

O Coordenador de Estudos do Observatório Econômico do curso de Ciências Econômicas da Universidade Metodista, Sandro Renato Maskio, comenta que uma das principais razões que determinam o local de compra é a proximidade com a residência e o local de trabalho.

“Boa parte dos moradores do ABC trabalham na capital e acabam realizando parte de suas atividades de consumo na proximidade do trabalho”, constata, para em seguida ressaltar a presença de fortes praças de consumo popular em São Paulo, como a região da Rua 25 de março, Brás e Bom Retiro. O docente também citou a melhor estrutura de São Paulo nos segmentos de serviços e entretenimento.

Somadas, estas causas fazem com que os moradores do ABC acabem consumindo e “deixando” o dinheiro na capital.

É possível reverter este quadro

Para mudar este panorama, o especialista sugere algumas ações, que dependem da iniciativa e boa vontade dos gestores públicos da região. Um upgrade na infraestrutura dos centros comerciais do ABC é fundamental para tornar a experiência de compra mais prazerosa e as regiões comerciais daqui mais atrativas.

Alguns pequenos cuidados como a melhoria nos serviços de zeladoria urbana – em iluminação, paisagismo e limpeza – já poderiam gerar resultados concretos. É necessário pensar, também, em avanços no sistema viário e na oferta de vagas de estacionamento, além de se apostar em aumento na sensação de segurança.

“A pergunta a ser respondida é: o que tornaria prazeroso, atraente, a experiência de visitar o setor comercial do ABC?”, indaga Maskio.

O professor defende que o Poder Público deve estimular a criação de áreas voltadas ao setor comercial (ele cita o comércio popular, com a presença de outlets, por exemplo) e aos estabelecimentos de entretenimento.

Paralelamente, os lojistas devem aperfeiçoar o atendimento e investir em ações comerciais e de divulgação voltada à atração dos consumidores.

Metrô é uma ameaça

Há muitos anos, a população do ABC vive a expectativa da chegada de uma linha do Metrô à região. O assunto, sempre ressuscitado pelos políticos nos períodos eleitorais, já ganha status de lenda popular e ficção junto aos moradores, cansados de tantas promessas não cumpridas e cronogramas ignorados sem o menor pudor.

Caso isso se concretize, sabe-se lá Deus quando, é inegável os benefícios que chegariam à região, em mobilidade urbana, qualidade de vida dos moradores e ao comércio do ABC, correto?

No que diz respeito ao comércio, não. A chegada de mais uma opção de ligação entre a capital e as sete cidades caracteriza, na verdade, uma grande ameaça aos empresários varejistas da região.

Em agosto de 2014, quando o governador Geraldo Alckmin assinou a Parceria Público-Privada (PPP) entre o Estado e o Consórcio Vem ABC e parecia que, enfim, o projeto sairia do papel, o Observatório Econômico da Metodista realizou um estudo para analisar os impactos econômicos para a região.

Dos 968 consumidores entrevistados à época, 65% declararam que ampliarão a frequência com que realizam compras em São Paulo após a chegada do Metrô, o que geraria uma debandada de vendas ao varejo da região e se tornaria em um enorme desafio.

“A expansão do Metrô para o Grande ABC deverá trazer externalidades positivas à região. Ao mesmo tempo, do ponto de vista do setor comercial, é importante ter a clareza de que a ampliação da mobilidade ampliará a competição no setor, o que exigirá estratégia para reter e atrair os consumidores”, argumenta o estudo.

Por outro lado, entre os empresários do setor ouvidos pela mesma pesquisa, a percepção é positiva: 70% revelaram esperar impactos positivos após a chegada do Metrô.

Maskio, professor da Metodista, aponta alternativas para o crescimento do segmento no ABC | Foto: Divulgação

 

Questionado se acredita que os moradores da capital se desloquem até o ABC para consumir, Maskio, que foi o coordenador do estudo, ponderou: “Depende do diferencial a ser criado. Há pessoas que saem da capital e realizaram compras em outlets em Campinas, Sorocaba, Itu… Por que não poderiam vir ao ABC?”, questiona. Tudo dependerá, portanto, da estrutura e das ferramentas utilizadas para atrair estes potenciais consumidores.

Outros setores são fundamentais

“O varejo é dependente da renda (riqueza) gerada pelos segmentos de alto valor adicionado (como indústria e serviços de alta tecnologia). Em todas as regiões onde o varejo é forte é porque há geração de elevado valor adicionado e renda por outros setores”, esclarece o coordenador do Observatório Econômico.

Se tomarmos por base o relato do professor, devemos ligar o sinal de alerta. O ABC passa há anos por um processo de desindustrialização, isto é, o egresso de diversas indústrias da região. Os motivos são variados, como a guerra fiscal que se sucede entre municípios de diversas regiões, o valor elevado de terrenos e aluguéis nas sete cidades, entre outros.

Mesmo assim, a região ainda não achou um segmento que possa substituir ou ao menos dividir o protagonismo com a indústria por aqui. Maskio ressalta que o principal gerador de valor adicionado e de massa de salários continua sendo o setor industrial.

Uma das alternativas seria investir na transformação do ABC em um grande polo de geração de tecnologias. Porém, o professor comenta que não vê o ABC “ter um outro centro dinâmico que não seja a indústria e os serviços ligados a ela”.

É urgente que os gestores públicos pensem em alternativas para diversificar a geração de receitas na região e, assim, diminuir a dependência do setor industrial. Aos empresários do varejo, a missão é ampliar a oferta de produtos e pensar em alternativas comerciais, para que a riqueza gerada pelos trabalhadores do ABC seja gasta por aqui,a fim de impulsionar a economia e os negócios locais.

É preciso entender os consumidores

O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Equipamentos e Serviços para o Varejo (Abiesv), Akira Nagata (foto), revela que os comerciantes devem se preparar para atender consumidores cautelosos nos gastos e, cada vez mais, exigentes. Nagata é formado em Administração pela Mackenzie e em Designer pela Anhembi Morumbi. Assumiu a instituição no início de 2017. Confira, abaixo, as expectativas do executivo para o varejo.

Negócios em Movimento (NM): Como foi o mercado de varejo em 2017?

 Akira Nagata (AN): Passamos mais de dois anos muito difíceis, sobretudo 2015 e 2016, quando mais de 100 mil operações foram encerradas no País, consequência de fatores como a alta da inflação, o desemprego e o crédito mais caro e escasso. Digamos que, após isso, o mercado de fornecedores tenha se depurado, os melhores permaneceram. E desde o ano passado, a economia está sinalizando uma retomada, o poder de compra da família aumentou, pela dinâmica da inflação.  A liberação das contas inativas do FGTS também ajudou. Porém, ainda, existe um longo caminho para a plena recuperação do varejo, que ainda sente o golpe da crise de anos anteriores.

NM: O que esperar do mercado de varejo em 2018? E nos próximos anos?

AN: Temos que olhar o ano de 2018 com moderação, sem otimismo de empolgação, cuidar dos negócios e dos clientes. Esperamos um cenário melhor do que os anos anteriores, porém de forma lenta, mas gradual e constante. O momento político e econômico que o País atravessa ainda trará dificuldades, no curto prazo, para o varejo e para toda a cadeia de fornecimento envolvida. No entanto, em momentos como esse, o mercado “incentiva” as empresas a terem melhores performances e a revisarem seus modelos de negócios, o que também as tornam mais robustas e preparadas. Já há empresas que estão em um movimento de atualização, visando estarem na frente quando o cenário se restabelecer de vez.

“Acreditamos que o atendimento deverá ficar mais personalizado e a customização em massa vai aumentar”  | Foto: Divulgação

Os comerciantes devem estar preparados para consumidores mais exigentes e cautelosos com os gastos. É preciso mais do que oferecer bons produtos e ter lojas bonitas.  É necessário acompanhar a modernidade em vários aspectos, inclusive o tecnológico. A migração das compras para lojas online também é outra propensão do consumo no País. E ainda acreditamos que o atendimento deverá ficar mais personalizado e a customização em massa vai aumentar. Entender e monitorar o comportamento dos consumidores é uma prática que ganhará força.

NM: Qual a atuação da Abiesv?

AN: Nosso objetivo é sempre ampliar a rede de relacionamento entre associados e varejistas. Entre as ações da Abiesv para tal, temos os “Backstage do Varejo” –  eventos que proporcionam troca de informações e experiências entre os associados e varejistas. O Backstage acontece quatro vezes ao ano, discutindo vários temas recorrentes. O próximo Backstage será realizado dia 27 de março, sobre “Projeção da Economia para 2018 e o Mercado Plus Size”. Também participamos das mais conceituadas feiras do setor, com o objetivo de oferecer aos visitantes “ilhas de conhecimento”, com modelos aplicados das melhores práticas de mercado em um ponto de venda – enfim, aproximar as necessidades dos varejistas às soluções de nossos associados.

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