A profissão de vendedor salva vidas

O título desta matéria é uma das frases de Rick Chesther, o empreendedor brasileiro cuja foto ilustra a capa da edição 110 do Negócios em Movimento. Com cerca de 13,7 milhões de desempregados e escasso suporte do governo às empresas, milhares de brasileiros se tornam empreendedores, e muitos estão satisfeitos

Atualmente, Rick Chesther escreve o terceiro livro, ainda sem data de lançamento | Foto: Everson Rosa

Vivian Silva

Atualmente, a população estimada do Brasil é superior a 212 milhões de habitantes. Deste total, 12, 9 milhões de pessoas estão desempregadas, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com este alto índice de desemprego, somado a pandemia da covid-19, o cenário se torna ainda mais desafiador para quem busca uma oportunidade profissional e também para a maioria das empresas, que precisam se adaptar a este “novo normal”.

Com isso, o retrato do Brasil é, cada vez mais, contrastante. Se por um lado falamos em Internet das Coisas (IoT) e inovação disruptiva, por exemplo, ainda temos neste mesmo País 13,5 milhões de pessoas na extrema pobreza, que sobrevivem com cerca de R$ 160 mensais (US$ 1,90 por dia), conforme último levantamento do IBGE de 2019.

Neste contexto de desigualdade social, que perdura por séculos no Brasil, em 24 de maio de 1977, no município de Pitangui, em Minas Gerais, nasceu Richesther Paaltiel da Silva, filho de um pedreiro e uma dona de casa – que sempre ajudava a comunidade. Sua trajetória de vida, poderia ser como a de mais um brasileiro que nasceu numa família de baixa renda e “luta” para levar o alimento para casa, mas contrariando as estatísticas, este mineirinho se torna um influenciador digital e ícone de uma geração, que sobrevive na informalidade, à mercê da própria sorte e, muitas vezes, sem suporte do Estado.

Conhecido apenas por Rick Chesther, ele precisou “trabalhar” aos sete anos de idade – apesar da legislação brasileira só permitir o trabalho como menor aprendiz, a partir dos 14 anos – e presenciou seus pais na labuta como carvoeiros.

Apesar da origem humilde, a riqueza de valores que o dinheiro não compra era ensinado em casa. “Ela (a mãe) se preocupou em nos formar cidadãos de caráter, independentemente da circunstância e do ambiente que nós estávamos, minha mãe se preocupou em criar os ‘águias na selva’ e mostrar para gente o que realmente importava”, relembra.

De Pitangui, Rick Chesther e sua família foi para Belo Horizonte (MG) e depois se mudaram para o Rio de Janeiro. Na “Cidade Maravilhosa”, ele vendia água mineral e ficou famoso ao dar uma aula de empreendedorismo, em um vídeo gravado em 2018, no qual ele explicava como empreender vendendo água. Na época, a gravação viralizou e foi compartilhado pelo empresário Flávio Augusto da Silva, que é o fundador da Wise Up, uma das maiores redes de idiomas do Brasil. A partir daí, houve um marco na vida deste vendedor.

Com o jargão “Pega a Visão”, termo que nomeia também o seu primeiro livro, Rick Chesther que já fez palestra na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, segue levando inspiração e conhecimento, para milhares de pessoas que o acompanham por meio das redes sociais, das palestras e no trabalho desenvolvido, juntamente, com Silva.

Informalidade elevada no mercado de trabalho brasileiro
Levantamento do IBGE, aponta que na segunda semana de agosto, 28 milhões de pessoas trabalhavam de forma informal, número levemente superior ao registrado na semana anterior, que era de 27,9 milhões. A taxa de informalidade ficou em 34,1%.

As informações estão no estudo “PNAD Covid-19” do instituto, que classifica os informais como “os empregados do setor privado sem carteira; trabalhadores domésticos sem carteira; empregadores que não contribuem para o Instituto Nacional de Seguro Social (INSS); trabalhadores por conta própria que não contribuem para o INSS; e trabalhadores não remunerados em ajuda a morador do domicílio ou parente”.

 Empreendedorismo

Com o desemprego em alta, o empreendedorismo aparece como única saída para conseguir uma fonte de renda. De acordo com o dicionário Michaelis, empreendedor é quem “se lança à realização de coisas difíceis ou fora do comum; ativo, arrojado e dinâmico”.

Mas para engatar um negócio, é preciso dedicação e estudo. Rick Chesther comenta que a própria internet tem muito conteúdo relevante e gratuito, basta estar atento para tirar o melhor proveito das informações disponíveis.

“Nós temos milhões de pessoas conectadas neste País, mais naufragando do que navegando neste espaço virtual, que é a internet, e está cheia de cursos gratuitos, de informação e séries que agregam valor”, comenta o influenciador digital.

Atualmente, Rick Chesther ministra palestras falando sobre a sua história e empreendedorismo, além de ser um dos instrutores do “Eu sou GV (Geração de Valor) by Flávio Augusto”, aplicativo que disponibiliza conteúdos inspiradores.

Confira a seguir os principais pontos da entrevista exclusiva com Rick Chesther, que com linguagem simples e direta, busca levar conhecimento, principalmente, para aqueles que empreendem por necessidade e não escolha.

Negócios em Movimento (NM) – O senhor comentou que precisou trabalhar muito novo. Foi possível conciliar os estudos, nesta época?
Rick Chesther (RC) –
Comecei a trabalhar com sete anos, na verdade, eu comecei a me virar com sete anos, não dá para considerar trabalho e não é bonito dizer que alguém tenha que se submeter a esta situação. No cenário ideal, o bom é que a juventude pudesse ficar até os 18 anos, ou 20, estudando e se preparando, para depois cuidar do mundo, mas não é a realidade da maioria e eu vivi nesta maioria, tive que me virar com sete anos de idade, e aí eu fui conciliando os estudos até quando deu, depois eu fui para a faculdade da vida, porque foi quem me formou, a escola eu aprendi o básico do básico.

NM – Nesta situação de pandemia que estamos passando, o empreendedorismo é uma das soluções para os desempregados?
RC – Eu costumo dizer que é importante ter a certeza que a pandemia vai passar, essa não é a primeira crise e não será a última, é importante ter certeza que qualquer formato pode transformar o ser humano em qualquer tempo, então, pra mim tanto faz ser servidor público durante a pandemia, você estar na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), ou você empreender durante a pandemia, considerando que ela vai passar, você precisa dar o seu melhor em qualquer uma dessas áreas.

Tem muito trabalho, se por um lado tem pouco emprego. Se a galera começar a pegar o que tem de trabalho para fazer, vai conseguir gerar sua engrenagem no lugar que está, em qualquer época. É, claro, que num momento de pandemia, caso a pessoa tenha que se desligar da CLT, ou for ‘convidado’ a se desligar da CLT em virtude da crise, ela pode sim, pegar uma caixa de isopor e vender água no sinal, começar a fazer bolo de pote, pegar uma receita da avó, da mãe, que é de família e começar a ganhar dinheiro com essa receita entre os amigos, as pessoas no bairro, pode fazer um curso de barbeiro e abrir uma barbearia, enfim, o cara pode fazer várias coisas, inclusive, no mundo digital ele tem várias oportunidades e ele deve, sim, fazer sua engrenagem virar.

NM – O senhor acredita que o mindset de uma pessoa é determinante para ela superar os desafios do cotidiano, ou mesmo ascender profissionalmente?
RC –
Mindset, eu não costumo usar estes termos, porque eu sou apaixonado pela língua do meu povo e pela forma simples de falar, se você levar esta palavra para dentro da comunidade, você vai perguntar para 100 pessoas e uma vai saber do que você está falando, então, eu prefiro simplificar e falar como a ampla maioria das pessoas vai entender.

Mas eu costumo dizer que a sua maneira de pensar vai mudar tudo no seu entorno, as pessoas que você anda, os lugares que você frequenta, as coisas que você faz, então é importante pensar nestas coisas e aplicar na prática, no seu dia a dia, se afastando do que não te agrega, de lugares que não te agregam, coisas que não te agregam, quando você consegue fazer isso, você muda a sua mente e dá passos, que você nunca imaginou ser capaz.

NM – Como foi sair da condição de mais um vendedor ambulante para um palestrante renomado? Qual foi o “pulo do gato”?
RC –
Eu costumo dizer que eu não sou palestrante, eu sou só um mensageiro e eternamente aprendiz, mas eu sou um vendedor e eu não deixei de ser um vendedor, pelo fato de não estar, hoje, atuando na praia como um ambulante, eu nunca vou  deixar de ser, este espírito está dentro do Rick, pode ser sim, que um dia eu deixe de ser palestrante, vendedor não. Então, a minha forma de me destacar dos demais, o meu ‘pulo do gato’ foi aos sete anos de idade, quando eu entendi que a venda salva vidas, eu acredito que a profissão de vendedor salva vidas, e eu comecei a vender aos sete anos de idade e ali foi meu ‘pulo do gato’.

A galera costuma olhar o vídeo da água em diante e costuma achar que o sucesso vem ali, para mim o sucesso não tem nada a ver com o que você colhe, para mim o sucesso é o que você planta. Então, eu plantei coisas boas durante uma vida e tive fidelidade ao cultivo das coisas boas, que eu plantei durante 40 anos de anonimato, quando eu tive a oportunidade de falar para um grupo de pessoas maiores, essas pessoas descobriram o que eu já vinha fazendo há muito tempo, nos lugares por onde eu passei, e é assim que eu conduzo a minha vida.

Se você  chegar na praia de Copacabana, ou parar para conversar com algum ambulante Brasil a fora, pode ser que você encontre alguns que não tenha tanto discernimento, mas você vai se surpreender encontrar outros tantos Ricks, que estão espalhados por aí, e ainda não tiveram a oportunidade de falar para um grupo maior, porque esta galera plantou a vida inteira e está colhendo dentro do anonimato e se um dia tiver a possibilidade também virá para um patamar diferenciado, pode até ser que outros Ricks surjam e outros palestrantes renomados surjam, mas eu não gosto do termo palestrante renomado, porque eu costumo ser um mensageiro, aprendiz e vendedor. A venda é o que me move. A palestra pode passar amanhã ou depois, mas a venda está dentro do Rick.

NM – O senhor já lançou dois livros. Há planos para um terceiro?
RC –
Lancei o ‘Pega a visão’ e ‘A favela venceu’ e já estou escrevendo o terceiro livro. Então, a necessidade deste povo em alcançar o conhecimento e a grande demanda pelo meu primeiro livro, fez com que eu escrevesse o segundo. Eu vendi 100 mil cópias de um livro no Brasil, o primeiro livro. Nós sabemos o quanto este povo precisa de conhecimento e o quão eles são falhos em buscar o conhecimento e, de repente, eles começaram a ler o livro de um igual, assim que essa galera me vê, o Rick é um igual a eles, que conseguiu chegar. Eles foram ler o livro, 100 mil cópias no Brasil é muita cópia, eu escrevi o segundo e já tem resultados extraordinários. Isso já me levou a começar o terceiro, eu não pretendo parar de escrever, enquanto a demanda existir.

NM – Qual a sensação de inspirar milhares de pessoas pelo mundo?
RC –
Eu nunca me apego a essa sensação, eu costumo dizer que quando você consegue ser fiel ao pouco, você vai alcançar muito naturalmente, então, se eu consigo inspirar minha filha, se eu consigo ser inspirado pelo meu pai, se eu consigo inspirar meu irmão mais novo, meus sobrinhos, eu já faço o básico que todo mundo precisa fazer, que é inspirar os seus, no seu raio de alcance, sem pensar em resultados extraordinários, porque extraordinário é você inspirar os seus no seu raio de alcance.

Eu gosto muito de colocar desta maneira, para que pessoas comuns saibam que são extraordinárias em inspirar os seus no seu raio de alcance, porque se não, nós acreditamos que somente os que falam para milhões (de pessoas) são extraordinários e isso não é uma verdade, quem está te falando isso é um filho de um pedreiro, muito grato por ter sido inspirado por este pedreiro. Eu inspiro a minha filha, para que ela inspire meu neto e, assim, nós estamos fazendo o simples no nosso lugar, se chegar resultado extraordinário melhor ainda, porque você vai inspirar mais pessoas.

NM – O empresário Flávio Augusto compartilhou o seu vídeo da água, em 2018. A partir daí muita coisa mudou em sua vida. Hoje, qual a sua relação com o Flávio, e qual suporte ele te deu naquela época?
RC – 
Sou suspeito para falar do Flávio, porque sou grato para caramba por este cara, eu costumo dizer que a minha vida mudou duas vezes, primeira ela mudou aos sete anos de
idade, quando eu descobri a lei da semeadura, você colhe apenas aquilo que você plantou, eu descobri aos sete anos de idade e aquilo virou muita ‘chave na minha cabeça’, aí eu fui trabalhar para ter as coisas que eu queria. Foi assim até os 40 anos de idade, quando eu gravei aquele vídeo, e aquele vídeo chega ao Flávio, ele compartilha e aí minha vida muda novamente.

Então, o Flávio é um cara que eu sou grato a ele, não apenas pelo que ele fez por mim, mas por tudo aquilo que ele se disponibiliza a fazer pelo povo brasileiro, de forma gratuita, na página Geração de Valor, para além do que ele fez durante toda a sua vida, saindo de uma situação totalmente adversa. Flávio nasceu em Jabour, na zona Oeste do Rio de Janeiro, que é bairro carente, andou de ônibus lotado, e teve um início de caminhada como milhões de outros brasileiros têm hoje, teve que submeter a um empréstimo bancário, para começar sua caminhada como várias pessoas fazem e conseguiu resultados mega extraordinários.

O Flávio é um cara fantástico. Minha relação com o Flávio é até muito próxima, ele tem um aplicativo que chama “Eu sou o GV”, com conteúdos exclusivos para esta plataforma, com cinco professores lá – Pedro de Abreu, Elisa Simões, Édio Alberti, Rick Chester e o próprio Flávio Augusto – eu faço parte do time que compõe o ”Eu sou GV”. Para além disso, tudo aquilo que eu faço é ligado a Buzz Editora, que é uma das empregas do grupo Flávio Augusto da Silva.

Você imagina o cara que ficou até quase 41 anos vendendo água na praia e se virando por conta própria, de repente tem um aparato profissionais de altíssimo gabarito, para cuidar de você, da sua carreira, isto é muito maneiro, então sou muito grato ao Flávio por tudo isso.

Obs.: Entrevista publicada originalmente na edição 110 da revista interativa Negócios em Movimento. 

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