ABC pode virar uma “nova Detroit” se não houver mudanças, alerta Fabio Palacio

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Por Vitor Lima 
Formado em Direito e Engenharia, Fabio Palacio, 39 anos, assumiu a secretaria executiva do Consórcio Intermunicipal Grande ABC em 30 de dezembro de 2016. À frente da entidade regional, um dos principais desafios de Palacio está sendo adequar a atuação do órgão ao orçamento mais enxuto estipulado pelos prefeitos no início do ano e concretizar ações importantes para o ABC, como a implantação do Parque Tecnológico de Santo André.

O executivo defende uma mudança na vocação econômica da região, baseada no desenvolvimento de startups e no investimento em inovação tecnológica, para que a região não vire uma “nova Detroit”, cidade americana que abrigou diversas indústrias automobilísticas e foi um dos motores do Estados Unidos durante o século XX, mas que decretou falência em 2013 e quase virou uma “cidade fantasma”.

Palacio iniciou a trajetória política jovem, em São Caetano do Sul, e elegeu-se vereador com apenas 22 anos, em 2000. Depois, atuou no primeiro mandato de José Auricchio Junior, na pasta de Desenvolvimento Econômico, e voltou à Câmara Municipal do município em 2008, desta vez para cumprir dois mandatos. No ano passado, concorreu à Prefeitura da cidade pelo Partido da República (PR) e terminou em terceiro lugar na disputa eleitoral, com 20,66% dos votos (19.291). Nos bastidores, é dado como certo que ele é um dos nomes da região que concorrerão à Assembleia Legislativa no ano que vem.

O secretário recebeu a reportagem do Negócios em Movimento na sede da entidade regional, na última quinta-feira (24), para comentar diversos assuntos, como a polêmica envolvendo a saída de Diadema do órgão e uma possível mudança na vocação econômica da região. Confira, abaixo, a entrevista com o secretário:
Negócios em Movimento (NM): Qual o balanço desses primeiros meses de atuação? 
Fabio Palacio (FP): A gente iniciou janeiro tendo que apagar um incêndio. Porque logo de cara eu chego aqui, no início do ano, com todo um planejamento de despesas, um orçamento organizado para uma receita de R$ 26 milhões, que era uma receita ordinária líquida dos municípios e na primeira assembleia do ano os prefeitos decidem reduzir o orçamento pela metade.

O secretário executivo do Consórcio defende a importância do órgão para o ABC | Foto: Vitor Lima
Então, os dois primeiros meses foram para entender o que acontecia na casa, revisar todos os contratos e cortar despesas. Determinados contratos nos mantivemos, os prioritários. Nós conseguimos reduzir, naquele momento, as despesas do Consórcio em 72%. Porque se eu chegasse em março com toda despesa planejada para R$ 26 milhões e não fizesse nenhum corte, eu já não teria dinheiro para honrar os compromissos.
NM: Então não tem impedido a atuação do Consórcio?

FP: E agora a gente já começou, na verdade, a retomar projetos. Porque o que a gente buscou é cortar despesas administrativas para poder aumentar o poder de investimento. Então, nós inauguramos o escritório de Brasília que tem sido um grande ponto para buscar recursos do governo federal.
NM: Foi inaugurado em junho, correto? Ele já rendeu algo concreto?

FP: Sim, em 28 de junho. Ontem (23 de agosto) nós tínhamos três prefeitos em agendas oficias em ministérios usando a estrutura do escritório de Brasília no agendamento dessas reuniões. Prefeitos de São Bernardo, São Caetano e Mauá estavam em Brasília articulando. As duas pessoas que atuam em Brasília eram cargos comissionados da estrutura daqui de Santo André e nós utilizamos os mesmos cargos para nomeá-los em Brasília e não onerar mais. Então o escritório de Brasília não traz uma oneração extra na folha de pagamento, na verdade o profissional que iria desempenhar suas funções aqui passa a desempenhar lá.
NM: Na avaliação de vocês, é mais estratégico e mais benéfico para a região.

FP: Sim. E a gente consegue ter um custo-benefício mais otimizado, já que o custo da manutenção do escritório lá não é alta. Outra ação importante é que a gente está entregando, agora no fim do ano, o Centro de Gerenciamento de Emergência, que é todo o monitoramento da nossa região, no que diz respeito à previsão meteorológica, pluviômetros, sensores de encosta, trabalhados de forma unificada com as sete defesas civis, aqui no Consórcio, fazendo o trabalho preventivo e corretivo nos momentos de catástrofe, de desastres. 
NM: Sobre o Plano de Mobilidade: andou?

FP: Não só andou, como avançou além daquilo que estava previsto. A gente está nas fases finais desse Plano de Mobilidade. Ninguém conseguia destravar o recurso em Brasília para a licitação do CCO, Centro de Controle Operacional, do sistema viário do Grande ABC. Nós conseguimos, logo no início desta gestão, destravar esse recurso de R$ 5 milhões no Ministério das Cidades. O CCO está na fase final de licitação para iniciar projeto também. Lembrando sempre que quem pleiteia as obras são os municípios. 

NM: Vocês fazem os projetos, deixam prontos e a verba vai para o município executar?

FP: Exatamente. Dentro de uma visão regional. Por que a gente aqui é o responsável por fazer os projetos, por deixá-los prontos para os municípios, para que eles pleiteiem recursos para obras? Porque quando a gente projeta por aqui, a gente projeta enxergando a região e se o município faz isso de forma isolada, às vezes aquilo que resolve o problema para ele cria problema para o vizinho. 
NM: Não podemos deixar de falar de Diadema. O prefeito pediu a saída, a Câmara aprovou, mas na última reunião ele estava presente. Isso não gera um constrangimento com os prefeitos? Porque ele, inclusive, fez críticas públicas à atuação do Consórcio. 

FP: Aí é uma pergunta que precisa ser feita para os prefeitos. O clima foi ameno, o clima foi cordial. Haviam algumas pautas daquela reunião que interessavam à Diadema, por isso da presença dele aqui, e é um direito que ele pode executar até o dia 30 de setembro. Então, não há nenhum impedimento, tanto que todos os técnicos de Diadema, secretários, continuam participando de todas as reuniões regularmente.

Palacio não aprova a saída de Diadema do Consórcio | Foto: Vitor Lima

NM: Pessoalmente, o que o senhor achou da decisão do prefeito Lauro Michels, de retirar Diadema do Consórcio? 

FP: É uma decisão que eu acho que impacta negativamente para Diadema. Todo o nosso trabalho foi para manter Diadema. Nós entendemos que a região é forte quando estão as sete cidades unidas, você tem muito mais condição de falar em nome da região. Nós oferecemos todas as possibilidades de parcelamento que fossem possíveis para que ele pudesse honrar o débito que ele tem. Mas, foi o entendimento dele de que não deveria permanecer. Nós continuamos trabalhando para manter Diadema dentro do Consórcio, e é uma decisão do prefeito agora, até dia 30 de setembro, definir se fica ou não. 
NM: Ele declarou publicamente que o Consórcio não rende frutos concretos para Diadema e existe uma boa parte da população do ABC que também pensa assim. Como o senhor trabalha para mudar essa percepção da população?

FP: O Consórcio é um organismo iminentemente de planejamento da região. O Consórcio não é um mecanismo que foi criado para fazer a entrega diretamente para a população. Planejar, entregar ao município, para que ele possa fazer a conquista da melhoria do serviço, da infraestrutura, do que quer que seja. Essa é a função do Consórcio. A nossa função aqui é pensar o ABC de forma regional, coletivamente, para que as ações sejam organizadas e gerem frutos positivos para toda a região. Nesse aspecto, a população não enxerga diretamente o trabalho do Consórcio. 
Outra categoria, se eu posso dizer assim, que também não consegue compreender diretamente a função do Consórcio é, muitas vezes, o Poder Legislativo. E eu digo isso porque eu fiz parte do Legislativo nos últimos 16 anos em São Caetano. E eu não compreendia totalmente a função do Consórcio, já que essa é uma casa eminentemente executiva e não legislativa. Aqui é uma casa de discussão, de secretarias, do trabalho técnico, e não do Poder Legislativo. 
Nessa situação, muitas vezes, a compreensão do trabalho do Consórcio também passa alheio ao Poder Legislativo e eu digo como também as vezes, de certa forma, crítico do trabalho daqui. Até conhecer e entender a função do Consórcio. Então, dentro deste aspecto nós estávamos desempenhando as atividades aqui até o ano passado num grau extremamente elevado de planejamento, sem quase que nenhuma entrega direta para a população. O que nós estamos tentando fazer esse ano é equilibrar essa balança, entre o planejamento e a entrega. Exemplo do que eu digo é o Centro de Gerenciamento de Emergência. É uma entrega direta da população. 
NM: Parque Tecnológico de Santo André: como andam os trabalhos para a implantação do complexo?

FP: Tenho uma reunião ainda hoje com o Paulinho (prefeito de Santo André). É exatamente com o tema Parque Tecnológico. Apresentarei a fase final, já com projeto arquitetônico, com perspectivas de investimento para a reestruturação do espaço da Rhodia e já no modelamento jurídico e financeiro para a implantação do Parque. 
NM: Já existe verba garantida para a execução do projeto?

FP: Tem, não 100%, mas tem.
NM: Qual é o valor?

FP: Não sei o número exato. É recurso que Santo André recebeu para isso, via emenda parlamentar. O Consórcio foi responsável pela contratação de uma entidade especialista na construção do Parque Tecnológico, esse contrato nosso, com essa Fundação, encerra-se no começo de outubro. Entrega-se o pacote pronto e aí é hora é de colocar a mão na massa e fazer aquilo sair do papel.

NM: O ABC historicamente é marcado pela atuação das indústrias, em especial da indústria automobilística e química. Contudo, há quem defenda que o desenvolvimento econômico regional não deve mais depender dessas indústrias e da produção em alta escala, mas sim de inovações e soluções tecnológicas, como startups… o senhor concorda? 

FP: Você não tem um celeiro de startups, um ambiente de startups virtuoso, se você não tiver o público consumidor dessa startup. O morador da região, como consumidor final dessas startups, do mesmo jeito que você tem no ABC você tem em todo o restante do País. Você pode se instalar em qualquer lugar para ter como consumidor final do produto de uma startup, do serviço, um morador comum, vamos dizer assim.
Agora, o que torna o ABC diferente? Ele pode se tornar um celeiro de startups quando essas startups têm toda uma indústria de base para vender soluções tecnológicas. Aí nós viramos diferentes. O que nós estamos tentando criar no ABC, e é um discurso que eu venho repetindo há muitos anos ao longo da minha trajetória, é de que o modelo econômico do ABC, se não for repensado, tende a transformar a região em uma nova Detroit. A gente precisa se reinventar. O modelo estagnou, chegou já no seu auge e hoje se desestrutura totalmente.

A cidade de Detroit sediou, por muitos anos, diversas indústrias voltadas à automobilística. Na década de 1960, no seu apogeu, a cidade chegou a ter mais de 2 milhões de habitantes. Contudo, o setor automobilístico enfraqueceu-se, muitas indústrias fecharam e outras mudaram. Parada no tempo, a cidade presenciou um enorme êxodo, ficou abandonada e teve falência decretada em 2013. Atualmente a cidade tem cerca de 700 mil habitantes   | Foto: Reprodução


NM: Esse é momento de mudar a vocação da região então?

FP: Repensar a vocação da região, o que não significa abandonar aquilo que nós temos para começar do zero, mas sim trabalhar para manter aquilo que nós temos e ainda agregar valor através de uma outra cadeia de serviços e de produtos, é o que a gente deve fazer. As startups hoje, se configuram, em um novo modelo de negócio, em uma nova forma de pensar a economia. A startup substitui o desenvolvimento de produto, aquela parte de inovação que havia dentro das empresas, com as empresas pagando CLT para um mundaréu de engenheiros, ficar pensando o futuro da empresa, ela terceiriza através de pequenos investimentos em startups para tentar tirar ideia inovadoras dali de dentro. É esse casamento entre startups e empresas tradicionais do ABC que pode tornar nossa região diferente e reaquecer a nossa economia. 
NM: E o Parque Tecnológico é importante para isso. 

FP: É fundamental. O Parque Tecnológico entra, em um primeiro momento, como um centro de inovação. Ele não entra única e exclusivamente como um espaço físico para a implantação de empresas. Isso é um parque industrial. Se a gente puder comparar, é como se fosse Sertãozinho. É um distrito industrial. O Parque Tecnológico tenta buscar tudo que se pode existir de conhecimento, atrelando a academia, atrelando empresas, trazendo o conhecimento para poder desenvolver novas empresas. Então é totalmente diferente daquilo que a gente vê quando vai em um distrito industrial. Quando a gente fala de Parque Tecnológico, esse modelo é o que pode fazer a diferença.

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