Especialista explica queda no preço do combustível

Conflito, principalmente, entre a Rússia e Arábia Saudita, somado ao isolamento social refletiram nos preços dos combustíveis para o consumidor final, explica o economista Ricardo Balistiero | Foto: divulgação/assessoria de imprensa

Vivian Silva

Nos últimos anos, os consumidores acompanharam e “sentiram no bolso” a alta nos preços dos combustíveis, que chegou a ultrapassar os R$ 5 o litro da gasolina no ABC e em outras regiões, por exemplo. Porém, com o início da pandemia do novo coronavírus (Covid-19), houve uma redução significativa no custo para o consumidor final.

Atualmente, o mercado da gasolina no Brasil é regulamentado pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e pela Lei Federal 9.478/97 (Lei do Petróleo). Esta lei flexibilizou o monopólio do setor petróleo e gás natural, até então exercido pela Petrobras, tornando aberto o mercado de combustíveis no Brasil. Com isso, desde janeiro de 2002, as importações de gasolina foram liberadas e o preço passou a ser definido pelo próprio mercado.

De 10 a 16 de maio, o preço médio da gasolina em Santo André foi de R$ 3,775, segundo dados da ANP | Foto: reprodução

Segundo levantamento semanal da ANP, de 10 a 16 de maio, o preço médio da gasolina em Santo André foi de R$ 3,775, etanol de R$ 2, 438, diesel R$ 3,087 e gás de cozinha (GLP – gás liquefeito de petróleo) R$ 64,86, para botijão de 13 quilos (Kg).

Com a pandemia, veio o isolamento social, que é uma das justificativas para a queda nos valores praticados nos postos de combustíveis, já que há uma menor procura pelo produto, ou seja, lei da oferta e da demanda.

Para entender um pouco mais sobre esta situação, a reportagem do Negócios em Movimento, conversou com o economista Ricardo Balistiero, que é doutor em Administração com ênfase em Gestão de Negócios Internacionais e coordenador do curso de Administração do Instituto Mauá de Tecnologia.

Negócios em Movimento (NM) – A lei da oferta e da procura é a principal causa da queda nos preços dos combustíveis? Por quê?
Ricardo Balistiero (RB) – Faz sentido, nós tivemos uma paralisação muito forte dos negócios no mundo todo, seja na aviação, seja no transporte rodoviário, em todas as suas modalidades, naturalmente, faz com que o preço despenque mesmo, na realidade esse movimento já era anterior, existe uma guerra também, principalmente, da Arábia Saudita liderando os países da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), em relação principalmente a Rússia, então, isso já havia ocorrido antes da pandemia, e também tem a questão do gás de xisto dos Estados Unidos, que concorre diretamente com o petróleo. Como a Arábia Saudita tem muita “bala” do ponto de vista de produtividade é um país que detém a maior produtividade do mundo, no que tange a exploração do petróleo, custa menos de US$ 10 (10 dólares) tirar petróleo na Arábia Saudita, isso aí para os outros países já é um valor superior a US$ 20, chega a US$ 30. Mesmo com o barril do petróleo a US$ 20, por exemplo, a margem de lucro é gigantesca na Arábia Saudita.

Hoje, com ele a US$ 32, ele ganha três vezes mais do que custa tirar o petróleo ali embaixo, então, ela consegue fazer essa regulação de preço, como a maior produtora mundial, então, junta as duas coisas esse conflito da Rússia com a Arábia Saudita, que antecede a pandemia e depois vem a pandemia, isso acaba explicando a queda forte do preço do barril do petróleo no mundo.

NM – Esta tendência de queda deve continuar, após o fim da pandemia?
RB – Não se tem nenhuma projeção de barril de petróleo acima de US$ 50 dólares, novamente, se a gente comparar, por exemplo, com 10, 15 anos quando o barril do petróleo estava em valores superiores a US$ 150 o barril, é uma loucura, ou seja, é um preço que vai parar, ficar nestes patamares mais baixos, então, não acredito que depois da pandemia haja uma recuperação muito forte. A Petrobrás, por exemplo, trabalha com barril do petróleo máximo de US$ 50, ela está fazendo todas as estimativas de negócio com base nisso. No caso do Brasil, especificamente, que é exportador líquido de petróleo bruto, mas que importa muito refinado, então, me parece que não baixa mais, porém está em patamares bem mais baixo do que já foi no passado, me parece que este é um novo normal no mercado de petróleo no mundo.

NM – Como o dólar afeta o preço dos combustíveis no Brasil?
RB – Há uma relação assimétrica entre dólares e commodities, como o petróleo é uma commodity sempre que há uma queda do preço do barril do petróleo, você tem uma alta do dólar, isso é uma tendência histórica, com petróleo é sempre mais forte, isto aconteceu nos anos 1970, em alguns momentos dos anos 1980, nas guerras do Oriente Médio, nos anos 1990, então, isto se repete, sempre que o petróleo cai, o dólar sobe, é uma forma de você compensar os países exportadores, principalmente, no caso do Brasil, especificamente, este balanço acaba sendo um jogo de soma zero, porque ao mesmo tempo que o dólar alto ajuda as exportações brasileiras, por conta da exportação do petróleo bruto, prejudica na importação de derivados, então, como nossa capacidade de refino é baixa acaba ficando mais caro trazer o produto derivado do petróleo dos grandes fornecedores brasileiros, este ponto é importante de ser levado em consideração.

Curiosidades
De acordo com informações divulgadas no portal da Petrobras, o consumidor ao abastecer o veículo no posto, ele adquire a gasolina “C”, uma mistura de gasolina “A” com etanol anidro. A gasolina produzida pelas refinarias é pura, sem etanol. As distribuidoras compram gasolina “A” (sem etanol anidro) das refinarias da Petrobras e o etanol anidro das usinas produtoras (a Petrobras possui participação em algumas usinas). Elas misturam esses dois produtos para formular a gasolina “C”. A proporção de etanol anidro nessa mistura é determinada pelo Conselho Interministerial do Açúcar e do Álcool (CIMA), podendo variar entre 18% e 27%, através de resoluções.

No preço que o consumidor paga no posto pela gasolina “C”, além dos impostos e da parcela da Petrobras, também estão incluídos o custo do etanol anidro (que é fixado livremente pelos seus produtores) e os custos e margens de comercialização das distribuidoras e dos postos revendedores.

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