O despertar do Brasil para a filantropia empresarial

Pandemia expõe importância de investimento a longo prazo em pesquisas acadêmicas, ciência e tecnologia | Foto: Divulgação

Sem cultura de filantropia empresarial, o Brasil sofre com o pensamento equivocado de associá-la ao assistencialismo. A prática, entretanto, engloba bem mais do que boas ações isoladas ou caridade: busca realizar mudanças estratégias, efetivas e de longo prazo, que promovam desenvolvimento econômico e social.

A pandemia atual traz à luz a importância da prática. Evidenciou que um país sem cultura filantrópica pode sair perdendo inclusive em guerras comerciais. Afinal, a longo prazo, as doações para pesquisas acadêmicas, ciência e tecnologia pode fazer muita diferença – haja visto os fatos recentes envolvendo o desenvolvimento da tão sonhada vacina contra o coronavírus, respectivas parcerias e negociações para compra e venda do tão esperado produto.

O momento delicado gerou aumento nas doações de empresas para saúde e ciência, mas a esperança é que a onda permaneça, para que o Brasil consiga produzir uma mudança de estrutura da filantropia. “O terceiro setor é mais ágil, consegue correr riscos em uma velocidade que o governo e as empresas não conseguem ou não se mobilizam”, explica Silvia Brandalise, professora aposentada da UNICAMP e presidente do Centro Infantil Boldrini. “Mas, como o retorno das pesquisas é demorado e a visibilidade dos cientistas dentro do Brasil é pequena, ainda é bastante difícil avançarmos”, complementa.

Dados da Charities Aid Foundation (CAF) apontam que apenas 8% das doações mundiais vão para saúde e bem-estar. No Brasil, o crescimento desse percentual faz-se ainda mais necessário, uma vez que o governo brasileiro tem falhado em colocar dinheiro na área. De acordo com o mais recente relatório de Indicadores Nacionais de Ciência, Tecnologia e Inovação, de 2018, os aportes em pesquisa e desenvolvimento vêm caindo desde 2016. No ano passado, 42% das despesas de investimento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicação foram congeladas.

Não se pode negar que passamos por uma crise de confiança em instituições de todas as áreas, fator que pode afastar investimentos. Mas instituições sérias têm buscado inspiração nos modelos americanos de profissionalização da área, que asseguram transparência e gerenciamento de recursos especializados, resgatando a confiabilidade e resultados. “Nos Estados Unidos, a captação e gerenciamento dos recursos é precisa. Quando vamos lutar por uma causa, é necessário: saber quanto dinheiro vamos precisar, porquanto tempo e quais serão as ações a serem realizadas, quantas pessoas serão beneficiadas, em qual prazo. Isso aumenta a credibilidade do projeto, que conquistará mais engajamento e doações”, informa Silvia.

“Entendemos que é preciso coragem e determinação para assumir a responsabilidade de olhar com clareza para os problemas sociais e concentrar esforços intelectuais e recursos financeiros para encontrar soluções para os desafios que se apresentam. Por isso, nos fortalecemos com informações e projetos sólidos, capazes de demonstrar suas vantagens a longo prazo”, complementa.

Espelhando-se na prática de tradicionais e consagradas instituições americanas como Harvard, Stanford, Princeton e Yale, que o Centro de Pesquisa Boldrini, instituição filantrópica criada para ser referência em pesquisa sobre câncer infanto-juvenil na América Latina, adotou como método administrativo-financeiro o fundo patrimonial perene (Endowment Found), de caráter privado e filantrópico, com a finalidade exclusiva para a pesquisa do câncer pediátrico, a fim de garantir a perpetuidade da instituição e, ao mesmo tempo, permitir que a administração não fique dependente de doações a curto prazo ou auxílio do governo.

Com esse modelo, utiliza-se apenas pequena parte dos rendimentos do Fundo (cerca de 7%). O capital a ser acumulado no Fundo será preservado para salvaguardar sua perenidade. Os recursos oriundos dos rendimentos financeiros obtidos da aplicação do capital serão utilizados para oferecer aos pesquisadores suporte necessário ao desenvolvimento de seus estudos.

No caminho da profissionalização da gestão em instituições filantrópicas, o Centro de Pesquisa Boldrini firmou parceria com a Fundação Banco do Brasil para gestão do Fundo Patrimonial, o que fará por meio de Comitê de Investimentos próprio, composto por membros de expertise em Economia e Planejamento estratégico-financeiro, para posterior utilização dos rendimentos nos projetos do Centro de Pesquisa Boldrini.

A presidente do Boldrini, Silvia Brandalise, explica que a prática de se ter uma Organização Gestora Independente para administrar Fundos Patrimoniais é comum em países da Europa e nos Estados Unidos. “Esse tipo de gestão nos dá ainda mais credibilidade na hora de buscarmos as contribuições para o Fundo, sejam elas com pessoas físicas, jurídicas ou até mesmo órgãos públicos. Essa captação pode ser feita com contribuições tanto nacionais quanto internacionais. Hoje, estamos semeando em terra fértil uma semente invisível, que carrega forças imensuráveis como esperança, solidariedade e fé num futuro melhor para o nosso país e para o mundo. As descobertas feitas no CPB trarão benefícios para as crianças do Brasil e do exterior”, conta.

Para o presidente da Fundação, Asclepius Soares, a parceria é um reconhecimento da credibilidade da FBB na gestão de seu fundo patrimonial, expertise adquirida ao longo de 34 anos de existência, que possibilita o recebimento de doações com finalidade específica para ações dessa natureza. “Este é um movimento que tende a crescer muito no país: a gestão dos fundos patrimoniais. O Centro Boldrini está confiando à FBB e nos enche de orgulho, porque os rendimentos do fundo que serão direcionados para a pesquisa contra o câncer infanto-juvenil, é algo inovador, além de ser uma tendência no terceiro setor”, avalia.

O Fundo, com valor global estimado em R$ 420 milhões em sua maturidade, funcionará espelhando-se nas normas regulamentadoras previstas na Lei 13.800/2019. “A captação começa logo após a assinatura da parceria. A ideia é chegarmos nos próximos meses em R$ 20 milhões e em R$300 milhões em três anos”, estima Dra. Silvia.

O papel das empresas

“Não se caminha sem Educação e Ciência. Na perspectiva atual, é ainda necessário vislumbrar para os jovens investigadores egressos das Faculdades de Biologia e de Biomedicina, a sua permanência e contribuição para o país. É comum no Brasil que logo após a obtenção do certificado de conclusão do curso universitário, o jovem adquira seu passaporte para migrar para os países desenvolvidos e lá desenvolver sua carreira de pesquisador. As boas ideias ficaram na mesa, por falta de fundos para investir em pesquisa no Brasil”, avalia a médica, complementando que “Precisamos hoje, mudar esta realidade. Como? Trazendo novos atores da sociedade civil , entre eles os empresários e os laboratórios privados, para contribuírem com os esforços para fomentar a permanência e desenvolvimento no país desta força de pesquisadores jovens e start-ups, promovendo a vinda de pesquisadores internacionais para auxiliarem na construção do almejado desenvolvimento em nosso país, na busca e produção de novos medicamentos contra o câncer da criança. Este é um problema que afeta a todos nós”.

E quem segura a filantropia no Brasil são as empresas. Enquanto a maior parte das instituições filantrópicas ao redor do mundo são fundações independentes ou familiares (90%, segundo dados do relatório Global Philantropy Report de 2018, realizado pela Harvard Kennedy School, mais de 90% delas encaixam-se nesse perfil), no Brasil, 64% das fundações são ligadas a corporações.

As companhias estão investindo mais nos setores de responsabilidade social, não apenas pelos incentivos fiscais, mas porque a nova geração de consumidores está de olho no posicionamento das organizações.

O papel das grandes companhias está em discussão em todo o planeta. As organizações com maior sucesso são aquelas que contemplam causas humanitárias em seu planejamento. Atuações fortes são bem-vistas pelo público, desde consumidores até colaboradores e investidores. Há atração e retenção maior de talentos, assim como mais engajamento.

“Ao redor do mundo, o desenvolvimento econômico e social de um país tem como um dos seus pilares uma sociedade civil atuante, que assume seu papel na busca de soluções para os enormes desafios sociais que temos no planeta, investindo recursos em pesquisas, testes, inovação, prototipação e monitoramento”, finaliza.

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