Empreendedores do ABC fazem startups decolarem

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Região do ABC consolida-se como protagonista na criação de negócios inovadores | Foto: Shutterstock

Com Vivian Silva

Uber, Ifood, Nubank e Airbnb são empresas de áreas distintas, mas que têm algo em comum: todas são startups, chacoalharam o mercado e conquistaram milhões de usuários. Aos poucos, e com significativas contribuições destas corporações, o termo “startuvidap” domina os noticiários e faz a cabeça de empreendedores por todo o planeta que prometem uma verdadeira revolução em todos os campos da ciência e do modus vivendi do homem sobre a Terra.

A Associação Brasileira de Startups (ABS) tinha registrado em seu banco de dados 2.519 startups brasileiras em 2012. Até 2016, este número avançou para 4.273, fruto da disseminação do conceito de startups. Entretanto, tais números são inexpressivos se comparados a outros países, como Portugal, por exemplo, onde existem mais de 30 mil startups num território menor que o estado de Pernambuco e menos habitantes que a cidade de São Paulo.

Mas, afinal de contas, o que é uma startup?

O termo já era utilizado em outros lugares do mundo e disseminou-se no Brasil durante os últimos anos. Por ser uma expressão nova, a definição de startup ainda não é consenso e nota-se algumas diferenças nos conceitos apresentados entre uma instituição e outra. Contudo, a significação acatada pela maioria dos especialistas, empresários e investidores inseridos neste ecossistema é a mesma utilizada pela ABS. De acordo com a gerente de comunicação e marketing da ABS, Vinck de Bragança, startup é “uma empresa que está num ambiente de alto risco e entrega um produto repetível e escalável”.  Ou seja, uma empresa que ofereça um produto replicável em larga escala, sem que isso gere grandes mudanças em seu modelo de negócio e em sua estrutura física. Por conta destas características, a grande maioria utiliza-se de base tecnológica e estão inseridas na internet, pois por meio dos softwares é mais fácil contemplar estes pontos.

Vinck define: startup precisa entregar produto repetível e escalável | Foto: Divulgação

Na visão de Vinck, a justificativa para o crescimento na quantidade de startups passa pelas demandas de mercado e pelo maior entendimento de que a automação reduz custos e aumenta a produtividade, além da crise econômica, que “empurrou” muita gente para o empreendedorismo.

Uma boa novidade em relação ao universo das startups brasileiras surgiu no início do ano. A empresa chinesa Didi Chuxing assumiu o controle da brasileira 99 Táxis, em janeiro, após transação milionária. Com a operação, a 99 tornou-se o primeiro “unicórnio” brasileiro, isto é, a primeira startup brasileira avaliada em mais de US$ 1 bilhão.

A 99 surgiu como um aplicativo para celular (app) de táxi e, após a chegada do Uber e outros aplicativos de carona compartilhada, expandiu a atuação e passou a trabalhar também com motoristas particulares. Hoje, no Brasil, a 99 é a principal concorrente do Uber.

ABC no universo das startups  

Como não poderia deixar de ser, os empreendedores do ABC também aderiram a este movimento e passaram a pensar em soluções disruptivas capazes de mudar o mercado. Entre as iniciativas da região, uma das mais bem-sucedidas é a Filho Sem Fila (www.filhosemfila.com.br), que reduz, por meio de um app, o tempo de espera de pais ao buscar os filhos na escola. O serviço é utilizado em cerca de 115 escolas do País.

Arte: Eliane Bosso Luz

Em dezembro, após o aplicativo ser selecionado pelo Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC), o empresário Leo Gmeiner, de Santo André, embarcou para Paris para realizar imersão no ecossistema empreendedor francês e realizar reuniões com possíveis parceiros. Atualmente, o empreendedor prepara a internacionalização da plataforma. Mas os cases bem-sucedidos no ABC não se resumem a este sucesso.

O empresário de São Caetano do Sul Joubert Mesquita, 41, ao lado do sócio Edvaldo Lima, 50, estão à frente da Futuritos (www.futuritos.com.br), startup que está em processo de aceleração, desde abril de 2017, pela InovaBra, órgão criado pelo Bradesco para promover inovação dentro e fora da entidade.

Hoje, a startup tem dois produtos: o Cofrinho Digital – uma conta do Bradesco Seguros apta a receber depósitos dos pais ou outras pessoas – e o Livro Digital – que é alimentado com mensagens, cartas, fotos, vídeos ou outros arquivos. Quando o jovem completar 18 anos, terá acesso aos dois produtos. Os pais que quiserem contar com os serviços da startup não precisam pagar nada à Futuritos – a empresa é remunerada pelo Bradesco de acordo com o número de contas criadas.

A ideia da solução foi inspirada no hábito do avô de Mesquita, que criava poupanças para seus netos. O avô alimentava as cadernetas até os netos completarem a maioridade, quando entregava o valor aos seus xodós. Quando adulto, Mesquita ingressou no mercado segurador e constatou: a abordagem de vendas dos produtos de investimento era fria.

“Fiz um plano de negócios pensando em como entregar uma proposta de valor que resolvesse alguns problemas: ajudar os pais a criarem uma reserva financeira para seus filhos, criar uma alternativa de presente infantil para ser lembrada por muito tempo e uma jornada de contratação simplificada, prática e segura”, afirma.

A solução ainda não recebeu nenhum investimento direto do Bradesco que, até o momento, apenas desenvolveu algumas soluções para a startup e realizou as mentorias. Mesquita classifica o processo de aceleração como “muito intenso” e comenta: “Tivemos que revisar tudo que tínhamos feito, definir vários aspectos da solução para adequá-la ao Bradesco, redesign completo envolvendo usabilidade e novas funcionalidades que não tínhamos previsto. É uma relação entre formiga e elefante, mas como todos estão envolvidos em encontrar soluções, as coisas acontecem”.

Para 2018, o plano é se aprofundar no comportamento e desejos dos usuários e tornar a Futuritos o maior canal independente da Bradesco Vida e Previdência, revela o empreendedor.

A Botnicks (www.botnicks.com) é outra iniciativa surgida no ABC que promete conquistar o mercado. Criada pelos jovens Daniel Faria, 32, e Icaro Kume, 28, a software house especializou-se em chatbots, ou seja, atendimento feito por robôs via chats, como o Messenger do Facebook ou o WhatsApp, por exemplo.

O atendimento automatizado facilita a vida de empresários de diversos setores, especialmente aqueles do segmento de alimentação que trabalham com delivery. Os clientes, ao entrar em contato com o restaurante, são atendidos por robôs capazes de apresentar o cardápio, sanar dúvidas e repassar os pedidos.

Faria destaca dois grandes desafios do negócio: equipe reduzida – até o momento a equipe se restringe apenas aos sócios – e a dificuldade de as pessoas entenderem a solução calcada na inteligência artificial. “Na hora de vender dá trabalho. ‘Robô de atendimento? O que é isso?’ Inteligência artificial é uma coisa que ainda não está no cotidiano das pessoas e vender isso para restaurantes, por exemplo, que é um setor tradicionalista, é complicado”, explica.

Um dos pontos altos da trajetória da startup ocorreu recentemente, durante o Campus Party. Durante a edição São Paulo do evento, a empresa do ABC participou do Desafio Sebrae Like a Boss. A iniciativa reuniu 48 startups, de 17 estados brasileiros, que se revelaram em pitchs aos investidores, mentores e outros agentes de mercado.

Botnicks, comandada por Faria, passou por projeto de aceleração do Sebrae | Foto: Divulgação

A Botnicks avançou na competição e chegou à semifinal, classificando-se entre as 18 melhores do desafio. “Foi muito legal. A gente entrou em contato com investidores, pessoas experientes, que realmente questionam o seu negócio e mais do que isso, eles oferecem ajuda para você. Conversam, dão feedback, te encaminham para alguma outra conversa. Foi fantástico, principalmente pelas portas que você abre. Se você não se expor você não chega a lugar nenhum”, conta Faria.

Sebrae lança edital para startups da região

Faria ressalta que o resultado no Like a Boss foi possível graças à processos de aceleração pelo qual a ferramenta passou. Um deles foi o StartupSP, programa de pré-aceleração do Sebrae, que seleciona startups em estágio de validação e oferece, gratuitamente, capacitações, mentorias e workshops durante quatro meses para contribuir com o desenvolvimento do negócio.

“A gente participou da edição de São Paulo do programa, em 2017, e foi muito bom, principalmente por inserir a gente no ecossistema que nem sempre é fácil de você entrar e por nos colocar em contato com as pessoas certas. O Sebrae trouxe tudo isso para a gente”, lembra o empresário.

O órgão já realizou dois ciclos do projeto, na capital e em cidades do interior. A ótima notícia para os empreendedores do ABC é que na primeira semana de fevereiro a entidade lançou o edital da terceira edição do projeto, no qual a região está presente.

Assim, dez startups da região serão selecionadas para participar da iniciativa. Além do ABC, estão contempladas no edital as cidades de Campinas, Piracicaba, São José do Rio Preto, Sorocaba e São Paulo. Ao todo, 60 startups serão beneficiadas com o projeto. O objetivo do programa é proporcionar o amadurecimento do negócio e tornar as startups aptas a receberem investimentos, por meio da validação do modelo do negócio.

O gerente do escritório do Sebrae no ABC, Paulo Sergio Cereda, comenta: “O objetivo é aproximar o Sebrae deste universo de startups, de inovação. O programa busca promover o desenvolvimento sustentável do negócio, com a distribuição de conhecimento e acompanhamento dessas ideias inovadoras”.

“O projeto foi essencial para a gente validar algumas coisas. Eles têm mentores, metas para a gente bater… eles chacoalham tudo o que você pensou”, explica Faria, que além do StartupSP, participou também do SPstarts, programa de mentoria da Prefeitura de São Paulo.

Pradella aposta na gameficação do setor corporativo | Foto: Divulgação

De acordo com o gerente do Sebrae, faltava uma iniciativa deste porte na região. “O ABC tem um ecossistema muito bacana, com universidades, gente qualificada e tradição empreendedora. É muito importante para a região a chegada de um programa desses”.

Empreendedores interessados em participar do programa devem se inscrever pelo portal www.f6s.com/startupsp até 4 de março, onde também encontrarão o edital completo.

A percepção de que o ABC está evoluindo a passos largos em seu ecossistema de startups é partilhada por diversas referências do setor. Prova disso é a quantidade de startups que borbulham e se multiplicam pelas sete cidades da região em diversos segmentos tradicionais e novos.

Destas inseridas em setores inovadores, um dos destaques é a Engage (www.engage.bz), de Santo André. Fundada em maio de 2015, a empresa utiliza a gameficação no processo de motivação de funcionários. Gameficação, explica Maurício Pradella, CEO da startup,  “nada mais é do que você pegar elementos presentes em jogos de entretenimento e trazer para o contexto real”.

Por meio do sistema de games, cria-se um ranking de acordo com as tarefas desenvolvidas pelos colaboradores. Na prática, os funcionários se sentem motivados para vencer a “competição” e, portanto, produzem mais e melhor. Para 2018, o objetivo da Engage é atingir um budget de faturamento de R$ 1,5 milhão.

Uma das maiores dificuldades da startup (que já recebeu aporte de um investidor-anjo e conta com cerca de 40 clientes) foi “descobrir exatamente que problema você quer resolver com o produto”, lembra Pradella – na linguagem dos empreendedores isto é chamado de Product Marketing Fit. “Desde 2015 a gente está afunilando as possibilidades e, de fato, este ano está bem mais claro o tipo de problema que a gente quer resolver para ser mais segmentado”, afirma.

Esta dificuldade também foi sentida por Daniel Godoy, criador da Apponte.me (www.apponte.me). “Este é o maior problema das startups: saber identificar o real problema do cliente, a principal dor e propor uma solução”. O negócio de Godoy consiste em uma solução para o relógio de ponto para pequenas e médias empresas. Entretanto, com o decorrer do tempo, a equipe do negócio constatou que a solução também gerava diversos benefícios para grandes corporações.

Empresa de Godoy, a Apponte.me, já conta com mais de 600 clientes | Foto: Divulgação

Hoje, com pouco mais de dois anos no mercado, a startup de Santo André conta com 660 clientes, de todos os portes. Entre eles, destaca-se a rede de mercados Dia, que utiliza a plataforma da Apponte.me para controlar a jornada de trabalho de seus colaboradores digitalmente.

Startups em diversos segmentos

De acordo com a ABS, o modelo de negócio preferido dos empresários do setor é o de assinaturas, que corresponde a 58% das startups. A maior parte do mercado é dominado pelos segmentos de educação e internet (12% cada). Das 4,2 mil startups cadastradas no órgão, 38% possuem dois anos de atuação e apenas 10% têm mais de seis anos.

Com base neste último índice, podemos considerar a Bilheteria Express (www.bilheteriaexpress.com.br), de São Caetano do Sul, uma empresa experiente no mercado. O negócio de comercialização de ingressos para espetáculos via internet foi criado em junho de 2013 pelos irmãos Fabio e Paulo Damas, em sociedade com Gustavo Soares.

A plataforma foi criada após os empreendedores constatarem dificuldade na aquisição de ingressos para eventos culturais no ABC. Contudo, a solução ultrapassou as fronteiras regionais e no portal da startup é possível adquirir tickets para espetáculos em diversas cidades e estados. Durante estes quase cinco anos de atuação, o portal já comercializou entradas para mais de 8 mil eventos.

As primeiras dificuldades encontradas pelos sócios foram em relação à mudança cultural das duas partes mais interessadas na ferramenta: os produtores dos espetáculos e os clientes. Ambos tinham receio em relação às operações realizadas via internet. Hoje, com a cultura digital consolidada, este problema foi minimizado significativamente.

Esq. para dir.: Paulo Damas, Gustavo Soares e Fabio Damas, sócios na Bilheteria Express, de São Caetano

“Cerca de 90% das nossas tecnologias e criação de sistemas são realizadas por nossa equipe. Desde que chegamos ao mercado fizemos até empresas grandes que tinham produtos similares ao nosso mudar e seguir um pouco a nossa tendência”, destaca Fabio Damas.

Fundo de investimentos

Outro elemento que nos permite confirmar a consolidação do ecossistema de negócios disruptivos no ABC é a criação do primeiro fundo de investimentos da região. A Dodeka (www.dodekainvestimentos.com.br), criada em junho do ano passado, é composta por cinco sócios, de diversas áreas, que se dividem na análise dos negócios para definir em quais startups investir.

Atualmente, duas startups já tiveram as ideias aprovadas e passam pelo processo de due diligence na documentação dos empreendimentos. Este processo de diligência deve ser concluído entre o fim de fevereiro e a primeira quinzena de março. Em caso de sinal verde, os negócios devem receber R$ 1 milhão em investimentos (aproximadamente R$ 500 mil para cada) e se concretizarem como os primeiros a receberem aportes da Dodeka.

Poder público e startups

Na busca pelo mapeamento das startups presentes no ABC, a Negócios em Movimento entrou em contato com as sete prefeituras da região. Os dados do Poder Público, contudo, são extremamente escassos. Não há nenhum levantamento nas Secretarias de Desenvolvimento do ABC sobre o assunto. As justificativas, na maioria dos casos, ficam em torno da dificuldade da definição do que é ou não é uma startup.

Em nota, a Prefeitura de São Bernardo do Campo informou que a atual gestão inaugurou o Centro de Empreendedorismo e Inovação Tecnológica (Ceitec) com o objetivo de fomentar projetos inovadores na cidade.

O documento esclarece que o primeiro chamamento público para captação de projetos culminou em 33 inscritos, das mais variadas regiões e cidades, dos quais 24 foram classificados para nova etapa. Além destas, a Prefeitura esclarece que outras sete startups estão em fase de incubação no município.

Arte: Eliane Bosso Luz

Em São Caetano do Sul, o secretário de Desenvolvimento Econômico, Trabalho, Turismo, Tecnologia e Inovação, Silvio Minciotti, afirma que a pasta está concluindo o programa do Centro de Inovação Tecnológica, projeto de incentivo ao desenvolvimento de novas empresas, que também contemplará startups. “É imprescindível o projeto que iremos implementar para ordenar e estimular o desenvolvimento dessas iniciativas”, destaca.

A Prefeitura de Santo André, por meio da assessoria de imprensa, informa que está estruturando a criação de um censo das startups instaladas na cidade. A assessoria destaca a criação do Comitê Permanente de Integração da Rede de Inovação de Santo André, “com objetivo de conectar instituições e empresas que atuam em segmentos relacionados a investimentos produtivos, bem como pesquisa, desenvolvimento e serviços de suporte à atividade empresarial” para contribuir com o desenvolvimento econômico da região.

O comunicado também ressalta a realização de uma inédita edição do Startup Weekend na cidade, em parceria com o Instituto de Tecnologia de São Caetano do Sul (Itescs), conforme adiantamos na edição de janeiro deste ano (92)  da Negócios em Movimento. De acordo com as informações obtidas com a Prefeitura, o evento ocorrerá em agosto. Realizado em 150 países, a iniciativa contabiliza cerca de 2,9 mil edições realizadas e é considerado o maior evento de empreendedorismo do mundo.

Questionada sobre o assunto, a Prefeitura de Diadema limitou-se a informar que “não tem conhecimento da existência de startups no município”. Já a Prefeitura de Ribeirão Pires informou que “estuda projetos de apoio às startups do município”. As demais prefeituras da região não responderam os contatos da reportagem até o fechamento desta edição.

Sobre as condições que o poder público proporciona para a criação de negócios inovadores, a representante da ABS declara que ainda é preciso evoluir em alguns projetos de lei. “A gente sabe que nem todo projeto de lei é feito olhando para o lado do empreendedor, que ainda sofre com muita burocracia. Ainda temos muito a evoluir”, defende.

Mesmo que muitas vezes falte um ambiente propício à criação de soluções disruptivas, é inegável o enorme potencial do ABC em torna-se uma região referência na criação de negócios inovadores. A sinergia entre as entidades de fomento ao desenvolvimento econômico das sete cidades, a troca de experiências entre empresários e a disseminação dos conceitos empreendedores nas universidades são fatores fundamentais para fortificação do protagonismo do ABC neste cenário.

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