Publicação digital atua na preservação da memória e aproxima ex-alunos de colégio de Santo André

Conforme consta no blog "Utinga: história e memórias", este logo foi criado especialemnte para os ginasianos veteranos | Arte: Reprodução

Preservar a memória, recordar bons momentos e reencontrar amigos: esses são alguns dos objetivos do tabloide digital O Ginasiano. Produzido pelo aposentado Dilson Nunes, o informativo é dedicado aos ex-alunos do “Amaral Wagner”, Ginásio Estadual que funcionou entrou 1957 e 1969 na esquina da Rua Berlim com a Rua Londres, na Vila Metalúrgica, em Santo André.

Durante o período, a instituição contava com um modelo de funcionamento peculiar para os padrões atuais: o espaço físico do colégio era compartilhado com outra unidade de ensino.

Sim, isso mesmo. A explicação consta no blog Utinga: histórias e memórias, página também mantida por Nunes. “Das 8h às 15h funcionava o Grupo Escolar João de Barros. Das 15h às 23h funcionava o Ginásio. Ambos com diretoria e funcionários próprios servindo-os de forma independente. Essa coexistência de gestões durou até 1969”, detalha texto publicado em 22 de julho de 2017.

De acordo com a publicação, em 1969 houve a separação das unidades escolares, e o Amaral Wagner mudou-se (já com o nome de Escola Estadual Amaral Wagner) para a Rua dos Aliados, no Bairro Bangu, onde continua em funcionamento até hoje. O espaço na Vila Metalúrgica ficou para o João de Barros, que passou a operar no local em tempo integral.

Dilson Nunes (esquerda) é o responsável pelo “O Ginasiano”; ao lado,
Odair Gea; ambos atuam em parceria para promover os encontros dos ex-alunos, interrompidos por conta da pandemia | Foto: Reprodução

Embora com pouco tempo de existência, a fase de “Ginásio” do Amaral Wagner criou profundas raízes naqueles que tiveram a oportunidade de estudar no local, como é o caso de Dilson Nunes.

Os aprendizados, aventuras e amizades vividas ali motivaram o aposentado a produzir, mensalmente, o informativo com lembranças da época e entrevistas com ex-alunos. Os entrevistados, além de contarem as principais lembranças do período ginasial, compartilham com os leitores um pouco sobre o desenrolar de suas respectivas trajetórias de vida. Criado em 2019, o informativo já acumula 29 edições.

“Eu sou responsável pela pauta, diagramação, capa, entrevistas, redação final e publicação na Web. Mas conto com a colaboração de dois ex-alunos veteranos: o João Boteon e o Milton Martins, que publicam crônicas mensalmente. Tenho também alguma colaboração eventual. Considero o entrevistado do mês como um colaborador também, uma vez que suas respostas fazem parte da história do Amaral Wagner. Para mim é um lazer…”, explica o aposentado, que, certamente, dá importantes contribuições para a memória local.

Isso porque o trabalho de preservação da história, inevitavelmente, ultrapassa as dependências do Amaral Wagner, já que grande parte dos estudantes do local residia na Vila Metalúrgica e em outros bairros de Utinga, o 2º Subdistrito de Santo André, e eram, portanto, vizinhos.

Sobre os ex-alunos, Nunes conta que possui 260 registrados (a maioria, cerca de 200, são ex-alunos; alguns são classificados como “membros honorários”; e alguns, felizmente a minoria, já faleceram). O registro dos ex-alunos da instituição resultou em alguns encontros presenciais, ocasiões em que amigos se reencontram para bater-papo e matar as saudades dos tempos de estudantes.

“Alguns ex-alunos estão fora de Utinga: Canadá, EUA, Portugal, Itália, Japão e França, que eu me lembre. Existem outros espalhados por outros estados do Brasil, alguns moradores da Baixada Santista, interior de São Paulo e em outros pontos do ABC… Mas a grande maioria ainda reside no 2º Subdistrito”, detalha o memorialista.

Em conversa com o Negócios em Movimento, Nunes contou um pouco mais sobre a iniciativa, relatou a importância nos anos frequentando o Amaral Wagner em sua vida, entre outras coisas: Confira:

Negócios em Movimento (NM): Por favor, conte-me quando e como surgiu a ideia de fazer a publicação?
Dilson Nunes (DN): Eu sempre me entusiasmei com a publicação de um jornal, desde quando era aluno do “Amaral Wagner”. Durante as aulas, compartilhávamos um jornalzinho, preenchido à mão em folha de papel almaço, inicialmente à lápis e depois com máquina de escrever, editando crônicas, comparações… O jornalismo me encantava e cheguei até a pensar na “Casper Líbero”. No Amaral, pretendi concorrer ao grêmio, como Diretor Cultural, mas não fui aceito pelo autor da chapa. Iniciou-se ali, uma frustração ‘sexagenária’. Depois de aposentado, fui instrutor de informática (autodidata), ministrando aulas de desktop publishing. A ideia de fazer um periódico dedicado aos ex-alunos veteranos do “Amaral” (inviável na obtenção de tiragens físicas, devido ao alto custo e à impossibilidade logística) amadureceu em 2019, quando tomei conhecimento dos flipbooks digitais on-line, utilizado como a um tabloide digital, por redes de supermercados e pelas publicações da C.A.B. Balladas Editora, (a título de exemplo). O Flipbook é prático e simula uma revista física, sem custo operacional. Basta um smartphone, tablet ou computador com internet. E dispensa patrocínio. “O Ginasiano” também é publicado em formato PDF e linkado com QR-Code.

NM: Qual a importância do Amaral Wagner e seus professores em sua formação como cidadão?
DN: A rigorosa disciplina. O alto grau de conhecimento e didática, de seus professores. O estímulo à leitura e ao uso do idioma inglês. Tenho em mente que os ex-alunos contatados por mim, hoje são bem sucedidos: empresários ou profissionais liberais.

NM: Podemos considerar esse trabalho de preservação das memórias da instituição como uma forma de retribuição do senhor ao colégio?
DN: É inegável a todos que por ali passaram o grau de aprendizado e disciplina recebidos. Na época, as escolas públicas possuíam alto nível no seu corpo docente e seu potencial pedagógico, com atitudes até meio militares. Mas foi deveras proveitoso. No meu caso em particular, a gratidão se deve ao fato de passar por lá de forma desapercebida, em razão da minha timidez; participando como simples “figurante” nas ações mais notórias, tais como: ser craque nos esportes, exímio dançarino e loquaz aluno. A criação de um blog, de uma página em rede social de ex-alunos, as confraternizações semestrais e a edição mensal de um flipbook, de certo modo resgatam minha omissão e dívida de protagonismo com Utinga, onde passei os melhores anos de minha vida e com o “Amaral Wagner”, a instituição de ensino que brilhantemente me educou.

NM: Imagino que a pandemia deve ter inviabilizado os encontros dos ex-alunos. Já estão planejando o encontro do pós-pandemia?
DN: Nosso mais recente encontro ocorreu no limiar da pandemia, em março de 2020, onde tivemos a oportunidade de comemorar singelas ‘Bodas de Ouro’ do meu casamento com a Madalena, (também ex-aluna), mas já realizamos três encontros virtuais, por teleconferência. Seguidamente cogitam-se encontros presenciais, o que no momento não aprovo. Tivemos casos de Covid-19 entre os membros ativos. Para a organização dos eventos, conto com o valoroso apoio de Odair Gea, coadministrador do grupo “Amaral” no Facebook.

NM: Ao longo da vida o senhor estudou ou trabalhou em instituições de história e/ou pesquisa? Pergunto isso, pois tanto “O Ginasiano”, quanto o blog sobre Utinga, me parecem tentativas de preservação da memória local. Estou certo?
DN: O ‘Amaral Wagner’, que conhecemos e reverenciamos durou apenas 12 anos… Passados 64 anos, ainda permanece na memória de seus ex-alunos. É inexplicável… Em abril, nosso colega Agnaldo entrou em contato com dois ex-professores, ainda vivos. Um deles completando 90 anos e na ativa!

Utinga é um Subdistrito comprimido entre três importantes municípios: Santo André, São Caetano do Sul e São Paulo. Foi um local bucólico e ao mesmo tempo promissor, com suas indústrias, sua área rural e seu comércio: Nosso subdistrito já foi servido por diversos meios de transporte: ferroviário, rodoviário, a cavalo, fluvial e até aéreo, (pois possuía um aeroporto e uma fábrica de aviões). Fizeram parte de sua história em nível mundial: O playboy Baby Pignatari e a Princesa e atriz Ira von Fürstenberg; jogadores de futebol da Seleção Brasileira (a várzea utinguense contava com inúmeros campos de futebol): Pedrinho, Victor Ratautas e Jair da Costa; o CEO da GOL Transportes Aéreos: Paulo Kakinoff; os cantores: Edson Cordeiro, Jerry Adriani e Péricles; atores: Antônio Petrin, Lucélia Santos e Angélica, entre outros de renome.

NM: Me parece que as cidades são como organismos vivos, os territórios vão se modificando ao longo do tempo. Quais as principais diferenças entre Utinga de hoje e aquela que existia na época em que os senhores eram estudantes?
DN: Utinga, hoje, se transformou em uma ‘cidade-dormitório’. Grande parte das indústrias que lá se instalaram, mudaram de local ou simplesmente se extinguiram: Swift, Moinho São Jorge, Usina São José, Brasilit, Coral, Quimbrasil… No meu entender, esse processo começou com a pretensa ideia de autonomia, desde os anos 50, quando equivocadamente confundiram Utinga com a Vila Metalúrgica, em razão da proximidade da estação ferroviária de mesmo nome: Utinga. Dessas indústrias, restou a antiga Laminação Nacional de Metais, atual Paranapanema. Lamento pelo abandono do Salão de Festas do Moinho São Jorge, por onde se apresentaram músicos de renome internacional, assim como lamento pelo abandono do Teatro Conchita de Moraes. E até hoje, não tenho como afirmar, se a Universidade Federal do ABC fica no 2º Subdistrito, pela confusa divisão ocorrida na década de 80.

NM: Fique à vontade para considerações finais.
DN: Gratidão aos responsáveis por “Negócios em Movimento” pertencente ao Grupo C.A.B. Balladas Editora, na figura de seu titular: Carlos Alberto Buzano Balladas e ao diligente repórter Vitor Lima, pela oportunidade de expressar minhas recordações de Utinga e do ‘Amaral Wagner’, contribuindo para a memória de ambos.

Confira as três últimas edições do “O Ginasiano”:

Edição 29

Edição 28

Edição 27

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