Ressignifique 2020

“Definitivamente, 2020 não foi um ano fácil, mas estamos chegando ao fim dele. Avalie quais foram os seus desafios, mas também os ensinamentos aprendidos”, recomenda a psicóloga Mayse Itagiba Rooke | Imagem: Freepik

*Por Mayse Itagiba Rooke

O que 2020 significou para você? Certamente essa pergunta pode despertar emoções, como ansiedade, medo, raiva, frustração, tristeza e solidão. É natural que as pessoas se sintam assim ao falar ou pensar sobre como foi o ano, especialmente 2020, quando vivenciamos um evento atípico: a pandemia da covid-19. Não nos foi ofertado aviso prévio do que iria ocorrer, nem passamos por qualquer treinamento para lidar com ele. Mas será que ao se deparar com a pergunta inicial, você também não pensou nas suas conquistas, vindas das mudanças, desafios e adaptações?

Não temos como negar que 2020 tem sido um ano sem precedentes para todos nós, marcado por aspectos que influenciaram diretamente nossa forma de viver. Desde mudanças na maneira de trabalhar, de se divertir, encontrar a família, até na forma de consumir. Tudo isso, veio acompanhado de indagações, como: “Será que higienizar assim é suficiente?”, “Usar máscara vai mesmo me proteger?”, “Será que estou com covid-19 ou que já tive e nem percebi?”, “Quando a vacina chegará?”, “Algum dia poderemos sair de casa sem máscara novamente ou este é o novo normal?”. Todas essas dúvidas podem servir de gatilho para o aparecimento de pensamentos de desamparo, impotência, fragilidade e insegurança, o que nos coloca em situação de vulnerabilidade para o desenvolvimento de sintomas, como ansiedade e depressão. Ou seja, a saúde mental está afetada diretamente por todas as questões relacionadas à pandemia do novo coronavírus.

É fundamental reconhecer que focar nesses problemas de saúde mental pode esconder um processo psicológico que tem sido investigado por muitos pesquisadores: a resiliência, um recurso que pode ajudar-nos a passar por esse momento de uma forma mais saudável e positiva.

Paremos um pouco para explorar o conceito de “resiliência”. É consenso entre pesquisadores sobre o tema que a resiliência é um processo psicológico que envolve a superação de uma adversidade e que, provavelmente, passar por esse momento difícil fará com que a pessoa saia fortalecida. Esse fortalecimento ou empoderamento tenderá a funcionar como um fator de proteção no futuro, isto é, frente aos próximos desafios esse indivíduo tem mais chance de os superar mais facilmente.

Outro aspecto importante de pesquisas sob a ótica da terapia cognitivo-comportamental é que o problema não está na situação adversa, mas na interpretação que se faz dela. Sob essa perspectiva, tente realizar as seguintes reflexões: Como você está interpretando a pandemia em 2020? Você tem achado que esse ano foi “perdido” ou mesmo uma sequência de catástrofes? Ou tem percebido que 2020 propiciou ensinamentos, buscar a felicidade em pequenas coisas, estar com a família ou mesmo curtir sua própria companhia, valorizar os momentos vividos com pessoas queridas ou como um passeio no shopping pode ser legal, mas que é possível ficar sem frequentá-lo e sem comprar uma roupa nova por um tempo e ainda assim, viver bem?

A partir desse exercício, entra em cena a diferenciação entre duas palavras: através e apesar. Não é adequado dizer que apesar da adversidade, uma pessoa se mostrou resiliente. O correto é afirmar que através da experiência difícil, foi possível o desenvolvimento de resiliência. Ao passar por esse momento pode-se falar em resiliência, superação e adaptação positiva. Assim, reflita mais um pouco. Por estar em uma pandemia, o que você conseguiu desenvolver? Passou a cozinhar em casa? A ter mais tempo para você mesmo e para sua família? Deu prioridades para coisas diferentes? Reavaliou sua vida e o que está fazendo com ela? A resiliência envolve aceitar o que não se pode mudar e realizar flexibilizações para lidar da melhor forma possível com esses novos desafios.

Agora você pode estar se perguntando: como desenvolvo resiliência? Para responder a essa pergunta, devemos reconhecer os fatores de risco e de proteção. Fator de risco é tudo aquilo que nos coloca em situação de vulnerabilidade ou tudo que leva ao desenvolvimento de problemas físicos ou mentais, como o desemprego, a insatisfação profissional, falta ou limitação de rede de apoio, uma relação amorosa difícil e, agora a onipresente situação de viver em um cenário pandêmico. Já fator de proteção é aquele que te auxilia a superar o risco, como estar satisfeito no emprego e possuir uma rede de apoio significativa com pessoas que realmente se importam com você. É a partir do interjogo desses fatores (de risco e de proteção), que a resiliência é forjada. Se você experimenta mais fatores de proteção do que de risco, provavelmente você conseguirá desenvolver resiliência. Caso esteja com mais fatores de risco que de proteção, a tendência é que você não consiga se mostrar resiliente.

A boa notícia é a possibilidade de trabalhar para modificar essa realidade. Em um novo exercício podemos nos perguntar: O que faz com que eu me sinta bem? O que favoreceria uma adaptação positiva a um momento difícil como este? É fundamental apresentar uma diversidade de fatores de proteção para conseguir desenvolver resiliência. Assim, a partir de suas respostas para as perguntas acima, tente se dedicar mais ao que te traz relaxamento e bem-estar, ao que te faz sorrir e te diverte. Fortaleça sua rede de apoio, aproxime-se de pessoas queridas, claro, sempre com os cuidados necessários para evitar contaminação da covid-19. A pandemia pode nos ter privado de ter relações face a face, mas existem outros meios de ter alguém especial por perto. Qual é o seu jeito de se manter ligado a alguém? Independente da forma é indispensável se manter conectado com pessoas que você possa contar, que te façam se sentir especial e querido.

Definitivamente, 2020 não foi um ano fácil, mas estamos chegando ao fim dele. Avalie quais foram os seus desafios, mas também os ensinamentos aprendidos. A pandemia vai continuar e não sabemos por quanto tempo, mas agora ela já não é mais uma surpresa, sabemos o que fazer para controlá-la. A expectativa do sucesso das vacinas também traz esperança! Que 2021 se inicie com muito otimismo, saúde e amor para todos nós!

* Mayse Itagiba Rooke é psicóloga e docente de Psicologia na Universidade Anhembi Morumbi, doutora em Desenvolvimento Humano, pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Realiza pesquisa sobre resiliência em famílias.

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